“Continua a ser duro fazer música nos Açores para quem quer levar a música a sério”
4 de jan. de 2026, 09:30
— Susete Rodrigues
A música começou, para Toni Pimentel, praticamente no berço, porque o “meu pai foi músico militar e maestro toda a sua vida e desde sempre estivemos ligados à música”. Conta-nos que o pai ensinava nas “Sete Cidades, nos Ginetes, e depois na Candelária, as escolinhas de música das Filarmónicas, e acompanhei sempre o meu pai. Vi primeiro o meu irmão Álvaro começar a tocar e acabei por fazer oito anos de formação, sempre com o meu pai”.A sua infância foi, pois, marcada pela música, mas também pelas “atividades normais da escola e de jogar à bola”. Diz-nos que foi uma infância “bastante feliz, com bons amigos”. É dela que tem “muitas saudades”. Revela-nos, a esse propósito, que está a gravar um tema com o título ‘Ainda Te Lembras’ que é dedicado a um amigo de infância. “Com o desenrolar da vida acabámos por deixar de ver aquelas pessoas que cresceram connosco. São recordações, é o querer reviver”.Quando começaram a surgir grandes bandas nacionais, “como os UHF, Rui Veloso, Xutos - que me influenciaram bastante - uma coisa que me despertou muito interesse foi a música cantada em português e original. É a partir daí que decido que quero fazer a minha própria banda, apesar de estar num projeto de ‘covers’, os ‘New World’, com o meu irmão e com dois amigos”. Toni Pimentel percebeu que queria algo que tivesse o seu cunho pessoal - que “contasse as minhas histórias, as histórias da sociedade onde vivia”. Diz que “havia umas bandas de ‘covers’, mas de originais existia muito pouca coisa. Apresentar um repertório totalmente em português e de originais, era difícil e continua a ser difícil”. Assim, nasceram os Passos Pesados. “Começámos em maio de 1990 a ensaiar”. Naquela altura “não era nada fácil em termos de equipamentos e empresas de som. Para darmos espetáculos era uma dificuldade enorme. Hoje em dia já há muito acesso em termos de material para executar música (...)”.Questionado se, principalmente, o pai, se surpreendeu quando criou uma banda de rock, Toni Pimentel diz que sim, explicando que “o que o meu pai tinha idealizado para mim, era ir para a Banda Militar, talvez ser maestro como ele, talvez ir para a Academia Militar. Para mim e para os meus irmãos, aliás um deles chegou a fazer carreira militar e a tornar-se músico militar. Lembro-me que, ao princípio, ele dizia que ‘essa música é só barulho’”. Depois, “tive o gosto de convidar o meu pai para fazer uma gravação e ir à televisão connosco e ele ver a coisa de outra forma, como antes não tinha visto”. Acrescenta que “os pais têm sempre uma ideia para os filhos. Também gostava que o meu filho fosse músico e ele nunca quis saber de música. Portanto, temos que ter essa aceitação para os projetos e para a vida dos nossos filhos”.A primeira atuação dos Passos Pesados é recordada “como se fosse hoje: foi na discoteca Cheers e “não me farto de agradecer ao Roberto. Fizemos ali a apresentação, o primeiro aniversário e o segundo aniversário. (...) Lembro-me de que foi numa tarde de sábado, com a discoteca cheia e foi uma surpresa. Para aquela altura já tínhamos uma boa comunicação, também devido a alguns jornalistas que nos divulgavam e que tinham curiosidade pela cena musical da região”.Recorda que fazer “uma gravação naquele tempo era muito difícil. A nossa primeira produção foi feita numa cassete”. Porém, “costumo dizer que as músicas, mais ou menos bem gravadas, se são boas, perduram no tempo e temos o exemplo do ‘Fuel’ uma música que em 1991 tinha sucesso e hoje em dia continua a ser música com mais sucesso”. Refere, ainda, que “chegamos a um ponto que qualquer pessoa pode fazer uma música com a inteligência artificial, mas não é igual”, assegurando que é “daqueles músicos e produtores que faz da maneira antiga. Posso dizer que não vou recorrer à inteligência artificial para compor discos, aliás já lá vão 11, e estamos a caminho do 12.º, mas tudo com o meu sentimento, porque acima de tudo, a música é a expressão de sentimentos e sensações, aí não há inteligência artificial que nos dê essa mais-valia”.Estar a tempo inteiro na música, “não era possível como não é possível. Tenho a minha profissão no Grupo Bensaude, mas fiz da música, digamos, uma segunda profissão, e se voltasse atrás dava os mesmos passos. Aliás, houve uma altura, em que muito jovem pensei que seria o futebol o meu futuro (como grande parte dos jovens sonha). Podia ter ido para a universidade, mas abdiquei de tirar um curso superior tudo por causa da música. De forma alguma estou arrependido”.Qual o segredo para se manter uma banda com 35 anos no ativo? Toni Pimentel diz que “é gostar e acreditar”, realçando que “as coisas não acontecem num dia, isso é uma caminhada. O segredo dos Passos Pesados é passo por passo, ter a consciência que essa caminhada não se faz num só dia, mas ao longo de alguns anos”.Em ano de comemoração de 35 anos de existência, os Passos Pesados têm uma agenda preenchida, começando a 7 de fevereiro com um concerto de aniversário. Depois “temos uma série de concertos em escolas. Estamos a fazer um projeto, de há três anos a esta parte, que é ‘Passos Pesados nas Escolas’, fazendo um apanhado de todas as músicas antigas e de novo disco”. Em agosto, “vamos ter um concerto com uma orquestra sinfónica, em Ponta Delgada, com direção musical do maestro Marco Torre, onde iremos fazer a retrospetiva musical dos Passos Pesados, de toda a discografia, será o auge das nossas comemorações”.Como analisa a música nos dias hoje, Toni Pimentel adianta que “há duas vertentes. Há o aparecimento de muitos artistas que são quase fabricados pelos programas televisivos e onde há uma produção quase artificial desses artistas. Acho que, nesse campo, a música está a regredir, há aquela falta de sentimento de músico, aquele verdadeiro amor à camisola”. Por outro lado, “tem aparecido muito bons músicos que têm um verdadeiro talento, que estão a ser acompanhados devidamente pelos conservatórios, pelas escolas de música”. A nível de Açores, “digo que continua a ser duro fazer música nos Açores para quem quer levar a música a sério”. “Vejo algumas organizações que têm algum poder decisão na contratação de artistas a continuar a relegar os artistas locais para segundo plano. (…) Se todos remassem para o mesmo sítio, certamente que essas bandas iam agradecer a ajuda. Quem paga os concertos, quem gere as nossas autarquias, é preciso que tenham à frente dos pelouros da cultura pessoas com mente aberta e que queiram arriscar em promover as bandas locais. (…) Pior é quando vejo à frente de festivais e de agenciamento de artistas, ex-músicos de bandas regionais, e que por alguma razão, esquecem-se que os Açores continuam a ter bandas originais, que já tocaram música original, que podiam ajudar quem está nessa luta”, diz . Ainda em jeito de desabafo, afirma que “tenho alguns episódios com agentes de bandas e outros, que por alguma razão nos tentam relegar para o esquecimento. Mas sem sucesso, pois não vamos parar, a não ser por razões mais fortes que nós (…)”.Sobre o que gostava de fazer ainda como músico Toni Pimentel afirma que “tocar com o meu ídolo, já toquei, que é o António Manuel Ribeiro, dos UHF. Acho que podia morrer hoje, que morria satisfeito”. No entanto, “se gostava de pisar outros palcos? É evidente que sim, mas a nossa carreira foi e está a ser feita com os ‘pés assentes na terra’”. Ou seja, “optámos por ficar em São Miguel. Não porque não tivemos a hipótese de nos mudarmos para o continente, mas porque decidimos, devido à família e profissão, ficar em São Miguel”. Lembra que “já pisamos o Estádio da Luz, em Lisboa, com 64 mil pessoas. Dentro do que podíamos fazer, acho que já fizemos muito, mas claro que se aparecerem concertos diferentes estamos sempre abertos”. O que queria fazer, já fez: “dar aquele passo que deixasse marca dos Açores. Isso ninguém me pode tirar. Podem-me tentar abafar em algumas rádios ou meios de comunicação social, etc., mas dizer que Toni Pimentel e os Passos Pesados não existiram e que não foram diferentes na música que cá se faz, isso é que ninguém vai conseguir fazer”. Diz por isso: “Enquanto houver quem ouça a minha música e tiver saúde para tal, não vou parar…”.