Os
dados foram apresentados pela presidente do ICAD, Joana Teixeira, na
Comissão Parlamentar de Saúde, onde apresentou o Relatório Anual 2024 - A
Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências, e foi
também questionada sobre o aumento do consumo de cocaína, a droga mais
prevalente nas overdoses dos últimos quatro anos.“Houve
um aumento de 60% de indiciados e condenados por consumo de ‘crack’.
Portanto, isto também representa realmente a violência e a criminalidade
que está associada”, disse Joana Teixeira.A psiquiatra explicou à agência Lusa que se trata de população que já consumia antes de ser detida.Segundo
o ICAD, o número de toxicodependentes que iniciaram tratamento atingiu,
em 2024, o valor mais alto da última década, reforçando a tendência já
observada em 2023.“O que observamos na
cocaína é efetivamente o seu aumento, nos últimos anos, mas um aumento
muito à base do aumento de ‘crack’, que tem algumas particularidades que
tornam esta substância muito mais deletéria e com muito mais
repercussões na saúde e na sociedade”, afirmou Joana Teixeira.Desde
logo, explicou, tem um potencial aditivo muito maior, um efeito muito
mais rápido: “Enquanto, que a cocaína demora cerca de vinte minutos até
ter o seu efeito máximo, o ‘crack’ em cinco minutos já fez o efeito e já
terminou”, elucidou.“E, portanto, isto
aumenta a procura, aumenta o vai e vem para compra da substância, e isso
para quem está do lado do mercado da oferta pode ser uma grande
vantagem, mas para quem está do lado da redução da procura é um desafio
adicional, porque temos uma dependência de uma gravidade muito elevada
que temos que analisar”, alertou.A
responsável disse que está a ser feito o levantamento das necessidades
de intervenção a nível de programas de prevenção e tratamento para a
cocaína.“Não é apenas uma questão
psiquiátrica pura de tratamento médico, implica aqui uma abrangência
mais holística com a parceria de várias entidades e o ICAD está
comprometido nessa articulação e em conseguirmos dar a resposta
adequada”, frisou.Joana Teixeira apontou,
por outro lado, a pureza das substâncias, que aumenta o seu efeito e o
seu potencial aditivo, e os policonsumos, sendo que muitas vezes as
substâncias já vêm adulteradas ou associadas a outras substâncias que
“aumentam ainda mais o potencial aditivo”. Deu
como exemplo os opioides sintéticos, em vitaminas sintéticas e novas
substâncias que muitas vezes se associam à cocaína clássica ou à
heroína.“Aquilo que queremos é intervir em
estreita articulação com as outras entidades de tratamento e também na
área social e na área das autarquias”, assegurou.
Em 2024, a potência média do haxixe e o grau de pureza da cocaína
base/crack e do ecstasy representaram os valores mais elevados dos
últimos 10 anos e, em contrapartida, o grau de pureza da heroína o mais
baixo deste período, lê-se no documento. Apesar
da diminuição das apreensões de ‘crack’ em 2024, os valores dos últimos
três anos foram muito superiores aos do período 2015-2021.Segundo
o relatório, em 2024, foram identificados e desmantelados quatro
laboratórios de transformação de pasta base de coca em cloridrato de
cocaína, existindo o risco de instalação destes laboratórios no país,
tal como tem acontecido noutros países europeus.