Consumidores cada vez mais preocupados com estado dos oceanos
7 de jun. de 2024, 10:59
— Lusa/AO Online
Os
dados fazem parte do relatório “Consumer Insights”, composto pelos
resultados de um inquérito global que é feito de dois em dois anos pela
organização internacional “Marine Stewardship Council” (MSC) e que
espelha as respostas de 27.000 pessoas em 23 países (601 dos inquiridos
são consumidores de produtos do mar português).Segundo
o relatório, publicado por ocasião do Dia Mundial dos Oceanos, que se
assinala no sábado, os consumidores estão cada vez mais conscientes do
impacto que as suas escolhas alimentares têm no planeta.Dos
portugueses inquiridos 55% admitiu estar a mudar a dieta. A maior
alteração verificou-se na carne vermelha, com 52% dos inquiridos a dizer
que reduziu o consumo nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo 40% disse
estar a consumir mais legumes e 12% disse estar a consumir mais peixe. E 35% admitiu que consumiria mais peixe e marisco de uma determinada marca se soubesse que não estava a prejudicar os oceanos.Laura
Rodríguez, diretora do programa MSC para Portugal e Espanha, em
entrevista à Agência Lusa, considerou a propósito do estudo que a
mudança dos hábitos de consumo é essencial para uma vida mais
sustentável, “não só a nível alimentar mas também a nível da utilização
dos recursos naturais do planeta”.Segundo a
responsável o caso português ilustra essa preocupação crescente, sendo
os 55% o valor mais elevado dos últimos três estudos.O
que transparece também do estudo, considerou, é que o foco dos
inquiridos está em recuperar o que já se perdeu. E acrescentou: “Não
podemos apenas olhar para a mudança de hábitos alimentares como a
solução para todos os problemas causados por anos de negligência, mas
sim como o início de um longo caminho que tem de ser percorrido”,
juntando responsabilidades individuais e coletivas. Segundo
o estudo, o topo das preocupações ambientais dos consumidores
relaciona-se com as alterações climáticas mas também com a perda e
destruição das florestas, a saúde dos oceanos e a poluição dos rios e
ribeiros.A preocupação quanto ao estado
dos oceanos aumentou, mas “caiu a pique” o número dos que acreditam que
ainda é possível salvar os oceanos de danos irreversíveis, apenas 35%.Nas
declarações à Lusa, Laura Rodríguez considerou o número preocupante,
mostrando que “existe um desânimo generalizado quanto ao tempo que será
necessário para recuperar a saúde” dos oceanos e às medidas adotadas
para o fazer.Mas, frisou, existe
capacidade para inverter a realidade atual dos oceanos, sendo para tal
necessário “um compromisso duradouro e uma maior educação ambiental para
as gerações futuras”.No inquérito
“Consumer Insights”, feito pela empresa GlobeScan (consultoria e análise
de dados), também foram pedidas aos consumidores soluções para os
problemas dos ecossistemas marinhos mas só uma percentagem pequena, 27%,
mostrou saber bem o que é a pesca sustentável. A
este propósito a responsável do MSC para a Península Ibérica assinalou
que a sobrepesca é uma preocupação mundial e salientou que a prática
aumentou três vezes desde os anos 1970. “E a tendência é preocupante”,
disse.Mas é uma prática essencialmente na
Ásia? Laura Rodríguez afiançou que não, falou do oceano Atlântico, deu
os exemplos da sobrepesca do atum patudo e de “alguns pequenos
pelágicos”. No entanto, “as medidas de
gestão positivas que a UE e outros países aplicaram melhoraram a
situação de algumas das unidades populacionais do Atlântico, como o
biqueirão da Cantábria, o atum rabilho ou o atum voador do Atlântico
Norte, os três certificados ao abrigo da norma MSC”, ressalvou.O
MSC estabelece padrões reconhecidos a nível mundial para a pesca
sustentável e a cadeia de abastecimento de produtos do mar. A marca MSC
em produtos do mar à venda nos supermercados que dizer que se trata do
resultado de pesca sustentável. Segundo a
diretora do programa atualmente o mercado português tem mais de 420
produtos com o selo azul MSC, mais 133% do que em 2019.Apesar
da recessão e da inflação dos últimos dois anos, acrescentou, o mercado
português “manteve-se ativo na transformação azul dos produtos do mar
sustentáveis” registrando um aumento de 60,2% do volume de negócios de
produtos sustentáveis em relação a 2019.Em
Portugal os produtos certificados com o Selo Azul do MSC representam
atualmente 3% do pescado consumido em Portugal. As pescarias
certificadas com o selo azul efetuaram mais de 400 melhorias nas
práticas de pesca nos últimos três anos, para proteger espécies marinhas
ameaçadas e habitats vulneráveis.O Dia
Mundial dos Oceanos destina-se a sensibilizar para o impacto das ações
humanas nos oceanos e apoiar ações que protejam e restaurem os oceanos,
sendo reconhecido pela ONU desde 2008.O
oceano cobre mais de 70% do planeta e produz mais de metade do oxigênio.
Nele vive a maior parte da biodiversidade da Terra e é a principal
fonte de proteínas para mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo.