Constitucionalistas rejeitam que falha em direitos seja culpa da Lei Fundamental
Constituição/50 anos
Hoje 09:50
— Lusa/AO Online
Um dos principais autores da Constituição, Jorge Miranda, considera que
se a Lei Fundamental fosse cumprida, muitos problemas na Saúde ou na
Justiça estariam resolvidos, com os constitucionalistas Jorge Reis
Novais e Teresa Violante a responsabilizar os agentes políticos.“A
Constituição continua perfeitamente estável, não há nenhuma dificuldade.
As dificuldades do país vêm de fatores económicos, da situação
internacional, mas não da Constituição”, disse à agência Lusa o
professor catedrático de Direito, considerado um ‘pai’ da Lei
Fundamental aprovada há 50 anos, a 2 de abril de 1976.Para Jorge
Miranda, “o essencial é cumprir a Constituição”, cujos valores
principais “têm permanecido” apesar das suas sete revisões.“Se se
cumprisse a Constituição não haveria atrasos na Justiça, não haveria
problemas na Saúde. A Constituição é que estabelece regras.
Infelizmente, nem sempre são cumpridas”, lamentou.O
constitucionalista reconheceu que existem “muitas dificuldades” na
aplicação da Lei Fundamental, que consagra direitos e valores como o da
igualdade, acesso à saúde, habitação, educação e justiça, entre outros.Contudo,
Jorge Miranda considera que essas dificuldades derivam “da situação
concreta do país, como há situações concretas também em muitos outros
países europeus e fora da Europa”.O professor catedrático apontou
para as sucessivas “crises políticas” e também para “alguma indiferença
dos cidadãos”, frustrados com a política.A frustração dos
portugueses com a falha no cumprimento de vários direitos
constitucionais é compreendida pelo constitucionalista Jorge Reis
Novais, que, contudo, rejeita responsabilizar a Lei Fundamental.“Não
faz sentido a contestação da Constituição. O que faz sentido é a
frustração de amplas camadas da população pelo facto de direitos
constitucionais não estarem a ser realizados na prática. Mas isso,
digamos, que não é uma responsabilidade da Constituição, é uma
responsabilidade dos agentes políticos”, argumentou.Reis Novais
apontou que um dos fatores que pode alimentar essa frustração é o facto
de a Constituição não prever o direito ao recurso de amparo junto do
Tribunal Constitucional.“A Constituição portuguesa tem muita coisa
boa, mas também tem coisas únicas e que são más: uma delas é a
impossibilidade dos cidadãos reagirem no Tribunal Constitucional contra
violações aos seus direitos, qualquer que seja o órgão que pratique
essas violações”, salientou.O mesmo défice é apontado pela
constitucionalista Teresa Violante: “Nós não temos uma queixa
constitucional ou um recurso de amparo, que é um instrumento muito
importante para o próprio cidadão comum perceber a importância que a
Constituição tem no seu dia-a-dia e os reflexos úteis que pode produzir
no seu dia-a-dia”.Em declarações à Lusa, a constitucionalista
concorda que “o facto de o programa constitucional não ser
suficientemente cumprido, é um problema que tem de ser assacado aos
agentes políticos” e não à Lei Fundamental, apontando que “a
Constituição não se auto-executa”.Teresa Violante considerou
legítima a frustração dos cidadãos, mas salientou que “o Estado Social
português foi, em larga medida, erguido após o 25 de Abril” e alertou
que “uma das formas que os populistas têm de capitalizar e fomentar esta
insatisfação é dirigi-la a instituições do regime” como a Constituição.Reis
Novais realçou que o texto “foi uma revolução no plano jurídico”, após a
revolução dos cravos, e que foi influenciado pelos pactos estabelecidos
entre o MFA e os partidos mas também pelo semi-presidencialismo do
constitucionalismo francês.Teresa Violante salientou que o período
histórico único no qual a Constituição foi elaborada levou a que a Lei
resultasse num “bicho um bocado estranho”, porque continha “elementos
socialistas, orientados para uma sociedade sem classes, e a planificação
da economia, mas também continha, ao mesmo tempo, uma vocação para o
pluralismo social e para uma democracia liberal”.Esta “Constituição
aberta” permitiu “uma evolução pacífica, em termos económicos e em
termos políticos, com uma transição e uma integração no processo europeu
sem levantar grandes problemas” e, ao mesmo tempo, continua a ser “a
âncora para visões de sociedade que também são muito distintas”.