Conselho de ética quer “radiografia completa” à procriação assistida em Portugal
1 de ago. de 2024, 10:41
— Lusa/AO Online
“Não
é possível termos boas políticas públicas na área da procriação
medicamente assistida [PMA], como noutros domínios, se não tivermos um
conhecimento objetivo e rigoroso do que se passa neste momento”, disse a
presidente do CNECV, Maria do Céu Patrão Neves, em entrevista à Lusa,
no dia em que passam cinco anos da entrada em vigor da lei que acabou
com o anonimato nas doações para tratamentos de PMA.Foi
no dia 07 de maio de 2018 que o Tribunal Constitucional se pronunciou
sobre a inconstitucionalidade do regime de anonimato dos dadores e sobre
o direito das crianças nascidas por PMA ao conhecimento da sua
identidade genética, o que inclui a identidade civil do dador. A
revisão da Lei da PMA que daqui resultou determinou que os gâmetas
(óvulos e espermatozoides) e os embriões doados antes de 2018 fossem
destruídos, respetivamente no prazo de três e de cinco anos, no caso de o
dador não ter entretanto autorizado o levantamento do anonimato.O
prazo para a destruição de gâmetas (óvulos e espermatozoides) doados
sob anonimato, e não utilizados, terminou em 2022 e para os embriões
expira hoje.A Associação Portuguesa de
Fertilidade lançou em junho uma petição pública para impedir a
destruição dos embriões e o Bloco de Esquerda apresentou em julho um
projeto de lei para alargar o prazo para a utilização de embriões e
gâmetas doados sob anonimato, respetivamente para dez e cinco anos.Maria
dos Céu Patrão Neves defendeu que o debate público esclarecido sobre
esta matéria exige informação ampla e verdadeira sobre o que está em
causa, não bastando falar de prazos. “Afinal,
os gâmetas já terão sido destruídos e os embriões doados só
residualmente são adotados, pelo que o impacto, hoje, nas listas de
espera para a PMA não será significativo”, afirmou.Segundo
dados do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, entre
2019 e 2021 foram doados 471 embriões e apenas 31 foram utilizados.“Poder-se-á
adiar, aumentar o prazo da norma transitória do ponto de vista
jurídico, mas não vai resolver o problema de fundo”, disse, salientando
que o problema é não haver gâmetas suficientes para os candidatos a pais
que chegam a esperar três anos no Serviço Nacional de Saúde para um
tratamento de PMA.Ao mesmo tempo, os
embriões, que são doados quando os casais deixam que querer usá-los num
projeto parental, continuarão a aumentar se não houver redução da sua
produção, observou.Maria do Céu Patrão
Neves considerou, por isso, que “iniciativas desencadeadas em reação a
alguns aspetos concretos de uma realidade complexa, sem uma visão ampla e
profunda do setor” não resolvem problema algum, apenas o adiam, e não
respondem às necessidades dos candidatos a pais.Por
outro lado, disse não ser “eticamente legítimo” fazer-se “uma pressão
enorme” sobre dadores que, no passado, doaram os seus gâmetas sob
anonimato.“Foi ao abrigo da
confidencialidade da sua identidade civil, que eles doaram. Agora não é
legítimo, é coartar a sua liberdade individual, estar a pressionar para
que levantem o anonimato”, alertou.Maria
do Céu Patrão Neves alertou ainda para “a situação de discriminação” já
real e a agravar-se com o alargamento dos prazos para a destruição de
embriões.“Crianças que hoje são nascidas
com material biológico doado sob anonimato não terão acesso imediato à
sua identidade genética, enquanto outras crianças, nascidas hoje ou
mesmo ontem, com material biológico doado após o levantamento do
anonimato (…) terão imediatamente acesso ao chegar à maioridade à sua
identidade biológica”, explicou. Para a
presidente do CNECV, importa perceber que esta é “uma grande
oportunidade para pensar nos problemas reais” e tentar resolvê-los,
através do aumento do volume de gâmetas disponíveis no SNS e da redução
da produção de embriões.Alertou para a
necessidade de “um investimento efetivo e eficaz” nos serviços de apoio à
reprodução humana, reforçando o Banco Público de Gâmetas, nomeadamente a
sua capacidade de angariação, de armazenamento e de distribuição para
que haja material biológico suficiente para satisfazer as necessidades.“É
preciso que haja uma cobertura geográfica destes centros de atendimento
e com um horário amplo, flexível, para atender as pessoas que querem
doar, porque neste momento nós sabemos que há mais doações nos centros
privados do que nos centros públicos e importa contrariar esta
tendência”, defendeu. Uma outra
recomendação do CNECV prende-se com a necessidade de haver de recursos
humanos especializados e dedicados em exclusivo a esta área das
tecnologias reprodutivas para permitir que “o maior número de pessoas
que desejam ser mães e pais o venham a ser”.