Conselho de Ética alerta para sérios riscos da inseminação caseira na saúde da mulher
15 de abr. de 2025, 15:51
— Lusa/AO Online
“A
confirmar-se esta prática, podemos dizer que, em primeiro lugar,
protagoniza um sério risco para a saúde da mulher”, disse a presidente
do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), Maria do
Céu Patrão Neves, num comentário à agência Lusa sobre a manchete do
Correio da Manhã com o título “Mulheres engravidam em casa sem sexo”.Segundo
o jornal, trata-se de um método em que, sem relação sexual e sem
médicos, é inserido esperma na vagina com recurso a uma seringa.
Maria do Céu Patrão Neves disse não ter informação rigorosa e objetiva
sobre esta prática, mas referiu que “rumores, boatos, acerca da mesma já
datam de há muito tempo”.Advertiu que,
nesta prática, estão implicadas questões de higiene e de segurança,
sendo que não está “totalmente afastada a possibilidade de lesões no
aparelho genital feminino, que possa, inclusivamente, agravar a situação
de infertilidade” de que “a mulher deverá padecer para tomar este tipo
de iniciativa”.No seu entender, esta
situação também se deve a falta de literacia na área da saúde ou mesmo
“ignorância nesta matéria”, porque, vincou, “a eficácia deste método
caseiro, para além das questões de higiene e segurança, é rigorosamente
nula, ou residualmente nula”.“Por isso,
está-se a arriscar a integridade do corpo da mulher para um benefício
inexistente”, alertou, defendendo que devia haver “mais formação na área
da saúde, mais conhecimento, para evitar este tipo de prática”.A
presidente da CNECV disse ainda que recorrer a este método pode ser
supostamente causado por “um certo desespero perante a infertilidade e
perante a falta de resposta do Serviço Nacional de Saúde”.Enfatizou
que as listas de espera para tratamentos de fertilidade no SNS “são
realmente enormes”, com a agravante de que, “quando se falha num ciclo, e
a média de sucesso aponta para falhar o primeiro ou o segundo ciclo,
volta-se outra vez para o princípio da fila de espera”. Segundo a responsável, esta situação pode implicar anos de espera até uma gravidez. “Como
nós sabemos, a maioria das mulheres hoje procura uma primeira gravidez
já numa idade mais avançada. Se descobre ser infértil, se tem que
esperar anos para conseguir um ciclo com sucesso, uma gravidez efetiva,
corre ainda o risco de ultrapassar a data limite para ser assistida nas
consultas de infertilidade no Serviço Nacional de Saúde”, explicou.Por
estas razões, Maria do Céu Patrão Neves disse suspeitar que haverá
nesta situação “também um certo desespero, por não se encontrar solução
para as questões de infertilidade e não se ter a alternativa de recorrer
a clínicas privadas, cujo preço é efetivamente muito elevado e que não
estará ao alcance da maior parte das mulheres que sofre de
infertilidade”.O Correio da Manhã divulga o
testemunho de um dador de sémen, em que afirma que se limita a fazer a
recolha do seu esperma para um copo e entregar.“O
processo de recolha e de inseminação deve durar no máximo 30 minutos,
convém não perder muito tempo", diz João, nome fictício. Segundo
o jornal, é no Facebook, em grupos privados, que se encontram os homens
dispostos a doar sémen e as mulheres que querem engravidar.
O CM entrou em alguns grupos de inseminação caseira - em Portugal e no
Brasil – e verificou que são constituídos sobretudo por casais de
lésbicas e mulheres solteiras, mas também casais heterossexuais.