Conselho de Educação aponta 20 mil alunos "fora do radar das escolas"
Covid-19
7 de mai. de 2021, 17:30
— Lusa/AO Online
Durante uma
audição parlamentar sobre a recuperação de aprendizagens perdidas
devido ao ensino à distância durante a pandemia de covid-19, a
presidente do CNE destacou a importância de recuperar os cerca de 20 mil
alunos do ensino básico e secundário que não foram às aulas ‘online’,
no primeiro confinamento.“Houve alunos que
caíram fora do radar das escolas, com os quais não foi possível
estabelecer contacto ao longo de todo o período de encerramento das
escolas”, alertou Maria Emília Brederode Santos, uma das especialistas
convidadas para uma audição parlamentar requerida pelo PSD.Segundo
um inquérito realizado pelo CNE aos diretores escolares, 2% dos
estudantes não participaram nas aulas ‘online’, que começaram em meados
de março do ano passado.A percentagem
“corresponde a cerca de 20 mil alunos”, disse Maria Emília Berderote
Santos, sublinhando que, mesmo que fossem poucos, deveriam ser sempre
prioritários.O perfil destes alunos é
conhecido: são crianças e jovens que pertencem aos grupos mais
vulneráveis, são os mais desfavorecidos economicamente e também aqueles
que as escolas sabem ser os mais desmotivados.“São
alunos já estavam em dificuldades, com insucesso e em risco de
abandono. Por isso, recomendaríamos que recuperar esses alunos fosse a
nossa primeira prioridade”, defendeu.Para o
CNE deveriam ser canalizados apoios socioeconómicos e recursos humanos
mais diversificados, como ter à disposição dos jovens assistentes
sociais, mediadores culturais ou psicólogos.Além
destes, o CNE entende que deve ser dada também “uma atenção muito
especial” aos alunos do 1.º ciclo, defendendo que, em vez de mais horas
de trabalho extra, deveria haver a possibilidade de coadjuvação nas
salas de aula.Além do professor da turma,
os alunos teriam mais um docente ou educador de infância, exemplificou
Maria Emília Brederode Santos, acrescentando que a solução também
poderia passar por escolher um futuro professor, ou seja, um estudante
que estivesse a terminar a sua formação mas que não tivesse conseguido
fazer estágio devido à pandemia. A
contratação de professores reformados, tal como aconteceu com os médicos
e enfermeiros nesta pandemia, também foi uma das sugestões deixadas
pelo CNE.Maria Emília Brederode Santos
disse ainda que “o regresso à escola, depois das férias, foi muito mais
difícil para os alunos e professores e muito mais dececionante” e que os
alunos deveriam ter sido mais ouvidos.Para a especialista, é preciso rever matérias e recursos assim como rever o papel da avaliação.Deixar
que sejam as escolas a identificar quais as aprendizagens que devem ser
recuperadas, num processo em que se ouça também os alunos, e dar às
escolas condições - “uma bolsa” – para que possam pôr os projetos em
prática foram outras das propostas do CNE.Algumas
destas ideias foram partilhadas por António Gomes Ferreira, da
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de
Coimbra, que também defendeu a necessidade de atribuir uma bolsa às
escolas, para que possam gerir os recursos de forma a atender às
especificidades da sua comunidade educativa."É fundamental”
confiar nas escolas, que foram quem "resolveu os problemas" e garantiu a
resposta aos alunos no primeiro confinamento, disse António Gomes
Ferreira.“As escolas foram o centro da
atividade que permitiu dar respostas, as possíveis e por vezes algumas
que até pareciam impossíveis”, afirmou, lembrando que os
estabelecimentos de ensino fizeram um “esforço enorme para remediar
problemas para os quais não estavam preparadas”.Também
este especialista considerou que se deve “olhar em primeiro lugar para
as crianças do 1.º ciclo”, acrescentando a importância de olhar também
as disciplinas de outros ciclos que são estruturantes.A
audição pedida pelo PSD terminou com a deputada social-democrata
Cláudia André a sublinhar também que “foram as escolas que estiveram na
linha da frente” e, por isso, o Ministério da Educação “teve o seu
trabalho facilitado”.A deputada do PSD
criticou a atuação do Governo, por ainda não ser conhecido o plano de
recuperação das aprendizagens, mas também por não ter tido “capacidade
de resposta”.“Este ministério deve apenas
pensar nas linhas estratégicas e orientadores para que as escolas devam
seguir um caminho, mas também forneça meios financeiros, humanos e
materiais necessários à sua autonomia a fim de dar as respostas
adequadas às necessidades, que de escola para escola tanto são
diferentes”, defendeu Cláudia André.