Conselho da Europa alerta para aumento de censura, intimidação e assédio à expressão artística
15 de fev. de 2023, 17:33
— Lusa
Intitulado
"Livre para criar: a liberdade artística na Europa", o relatório
recomenda, no contexto das atuais crises políticas e económicas, que os
46 Estados-membros do Conselho da Europa identifiquem boas práticas e
definam medidas para lidar com os problemas, pensando em soluções para o
futuro.O relatório tem como objetivo dar
uma visão geral dos desafios que os artistas europeus e os profissionais
da cultura enfrentam na sua atividade, que vão desde as legislações dos
países, ataques de grupos não-governamentais e ameaças 'online', além
de pressões subtis que provocam autocensura.Dos
44 Estados europeus em análise, numa lista relativa a liberdade de
expressão, 24 são classificados como sociedades “abertas”, 12 “menos
restritivos”, quatro “restritivos” e quatro “em crise”, indica o
relatório.Numa lista quantitativa, em que
os diferentes Estados em estudo não são identificados, o relatório
aponta que apenas um país europeu conseguiu um aumento significativo de
liberdade de expressão nos últimos anos, deixando de ser “restritivo”
para passar a “aberto”, mas sete decaíram de forma “preocupante".Outro
relatório do Conselho da Europa sobre a liberdade de expressão,
realizado em 2021, mostrou 61% de aumento de ataques contra jornalistas
naquele ano, comparando com o anterior.Também
adianta que foram registadas 380 violações da liberdade de expressão
artística em 28 países europeus entre janeiro de 2018 e outubro de 2019.Entre
elas, 31 eram referentes a artistas presos, e mais 50 detidos à espera
de julgamento, enquanto 21 estavam a ser julgados. Há ainda casos de
artistas alvo de assédio, censura e proibição de viajar.Em
2021, os dados apontam para um aumento destes registos para 402 ataques
à liberdade de expressão artística em 28 países europeus. A
Turquia é o país que registou o número mais alto de casos levados ao
Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, com mais de 15.000 casos, aponta o
relatório.O documento indica ainda que
existem vários países que criminalizam insultos a chefes de Estado e
membros do Governo, incluindo Andorra, Bélgica, Bulgária, Dinamarca,
França, Alemanha, Grécia, Islândia, Itália, Malta, Mónaco, Países
Baixos, Polónia, Portugal, San Marino, Eslovénia, Espanha e Suécia. Os que determinam multas para insultos aos símbolos do Estado incluem a Áustria, Croácia, Polónia, Malta, Polónia e Sérvia.Em
2020, o Conselho da Europa lançou o Manifesto pela Liberdade de
Expressão das Artes e Cultura na Era Digital para assinalar os 70 anos
da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, e para responder às
preocupações sobre os “variados e consistentes ataques” à liberdade de
expressão artística na Europa.No centro do
manifesto - que representa um “compromisso político” do Conselho
Europeu - está o princípio de que a liberdade de expressão artística é
essencial nos diretos humanos, deve ser protegida de ataques e ameaças, e
está enquadrada no artigo 10 da Convenção Europeia dos Direitos
Humanos.“A liberdade de expressão
artística está a enfrentar uma pressão crescente porque cada vez mais
artistas, especialistas e profissionais da cultura denunciam problemas e
verdades incómodas, tornam visível o invisível, e por isso são sujeitos
a pressões, censura, intimidação e assédio”, assinala o relatório hoje
divulgado.Baseado em pesquisa de fontes
sobre a liberdade de expressão artística e monitorização de direitos
humanos e culturais, direitos de atividade dos media, e dados recolhidos
pela relatora, Sara Wyatt, especialista nesta área, o relatório também
reúne contributos de um grupo de artistas e agentes culturais de 12
países europeus que estiveram reunidos em julho de 2022 em Liubliana, na
Eslovénia.Os participantes partilharam as
suas perspetivas, tendo denunciado os ataques que testemunharam, desde
detenções, ameaças físicas e litígios, repressão e pressões que levam à
autocensura no trabalho criativo.A crise
atual já vem desde 2020, quando a pandemia de covid-19 “afetou
severamente as condições de trabalho e rendimentos dos artistas e do
setor cultural e criativo no seu conjunto”, reforçada pelo impacto
económico negativo da guerra, a ascensão de extremismos políticos e os
desastres climáticos.No documento, é
citada a secretária-geral do Conselho da Europa, Marija Pejčinović
Burić, que, no seu relatório anual de 2021, alertou para a situação de
“grande pressão na democracia” e no “cada vez mais evidente papel
crucial das artes e da cultura como meio poderoso para manter o diálogo
construtivo em sociedades democráticas e abertas”.“As
restrições à liberdade de expressão artística afetam toda a sociedade,
diminuindo o seu pluralismo e a vitalidade do processo democrático”,
alertou, na altura, a responsável europeia.Apesar
de notar o crescendo das ameaças à liberdade de expressão na Europa, o
estudo hoje divulgado refere que segue uma prática estabelecida nos
relatórios do Conselho da Europa, e não identifica países que estejam a
infringir direitos, a não ser em casos já comentados publicamente pela
instituição.No documento, a liberdade de
expressão artística é genericamente descrita como o direito a criar sem
censura ou intimidação; de ter o trabalho artístico apoiado, distribuído
e remunerado; liberdade de movimento; de proteção social e económica e
de participar na vida cultural. Estes
direitos, segundo o Conselho da Europa, devem ser garantidos pelo
Estado, pela sociedade civil e as organizações culturais, e recomenda
que sejam asseguradas as devidas proteções ao trabalho artístico, a
criação de redes e fundos de apoio, a educação para a valorização destes
valores nas escolas e a sensibilização da sociedade."A
expressão artística e criativa faz parte da liberdade de expressão e os
artistas devem ser protegidos contra a censura e qualquer forma de
pressão ou intimidação. As limitações devem estar em consonância com a
Convenção europeia de Direitos Humanos e as leis do Tribunal Europeu dos
Direitos Humanos", diz um dos parágrafos do Manifesto pela Liberdade de
Expressão das Artes e Cultura na Era Digital, publicado em 2020 pelo
Conselho da Europa.