Comunidade portuguesa de Edmonton preserva a identidade através da cultura no oeste canadiano
29 de out. de 2025, 15:47
— Lusa/AO Online
Formada
sobretudo por emigrantes vindos do Minho, Beiras e Açores nas décadas
de 1940 e 1950, continua a afirmar a sua presença através do Centro
Cultural Português de Edmonton, fundado oficialmente em 1997, criado no
princípio da década de 1990, uma casa construída “com o esforço e o suor
dos portugueses” que se tornaram parte do mosaico multicultural do
Canadá.“A cultura é o motor desta casa. É o
folclore, a música, a língua e as tradições que mantêm viva a nossa
comunidade”, afirma à Lusa Nuno Gamito, presidente do Centro desde 2024,
natural de Grândola (Alentejo), no Canadá desde 2012.O
edifício da associação foi adquirido em 1996 e transformado em sede
própria através do trabalho voluntário de dezenas de imigrantes
portugueses.Hoje, continua a ser o ponto de encontro das famílias portuguesas e luso-canadianas.“Esta casa foi feita por pessoas humildes, mas com um enorme coração português”, lembrou Gamito.“Foi o sonho de uma geração que queria deixar uma marca e garantir que os filhos e netos não perdiam as raízes”, acrescentou.Durante
os anos de maior atividade, o centro chegou a ter 500 membros pagantes,
organizando bailes, festas populares, torneios e jantares comunitários.
Mas, nos últimos anos, enfrentou desafios de sustentabilidade.“A
pandemia foi um golpe duro. Tivemos de vender comida para fora para
pagar as contas. Perdemos a licença dos casinos, que eram uma das
principais fontes de receita, mas conseguimos recuperar o direito a
operá-los a partir do próximo ano”, explica o presidente, que reconhece o
“papel essencial” do apoio do Consulado de Portugal em Vancouver,
responsável por um subsídio de 15 mil dólares canadianos (10050 euros)
em 2024.No salão principal, decorado com bandeiras, azulejos e fotografias antigas, o som das concertinas voltou a ecoar.O
Rancho Folclórico do Centro Cultural Português de Edmonton, que esteve
inativo durante a pandemia, renasceu com força: o grupo infantil reúne
cerca de 50 crianças entre os 3 e os 14 anos, e há poucas semanas foi
relançado também um rancho de adultos.“O
rancho é o coração desta casa. Foi assim que tudo começou e é o que
continua a unir as pessoas”, diz Elizabeth Gameiro, professora e
diretora da cozinha do Centro, nascida já em Canadá, filha de emigrantes
de Ponte da Barca e Arcos de Valdevez.“Começámos
num pequeno café, com meia dúzia de amigos, uma concertina e muita
vontade de dançar. Dali nasceu o rancho e, depois, o sonho de criar esta
casa. É um orgulho enorme representar Portugal aqui em Edmonton.”Entre
os rostos da nova geração destaca-se Catarina Portela, educadora de
infância, filha de emigrantes de Arcos de Valdevez e coordenadora do
rancho infantil.“Eu sinto-me 50% portuguesa e 50% canadiana, mas o meu coração é português”, diz, com um sorriso.“Passei
todos os verões em Portugal e cresci a vir aqui ao Centro. Ensinei
catequese na igreja de Nossa Senhora de Fátima e hoje continuo ligada à
comunidade”, acrescentou.Catarina acredita que há um regresso do interesse dos jovens pela cultura de origem.“Os
jovens estão a voltar. Estão mais curiosos pela música, pela
gastronomia, pelas danças. Quando eu era adolescente, havia algum
afastamento, mas agora há um renascimento. Este rancho infantil está a
criar amizades e orgulho em ser português”.A direção do Centro quer agora reforçar as atividades culturais, modernizar o edifício e envolver mais voluntários.O objetivo, disse Nuno Gamito, é garantir que o legado deixado pelos fundadores continue.“As
novas gerações já nasceram aqui e têm ritmos diferentes. Mas é através
da cultura que conseguimos passar o testemunho. Queremos que os jovens
sintam que esta casa é deles e que vale a pena continuar este trabalho”,
disse.Mesmo em Alberta, onde os invernos
longos cobrem tudo de branco, o Centro Cultural Português de Edmonton
continua a ser um refúgio de calor humano, sotaques misturados e
recordações de Portugal.“Somos poucos, mas
com o coração muito grande. E enquanto houver uma concertina a tocar e
alguém a dançar o vira, Portugal continuará vivo aqui em Edmonton”,
concluiu Gamito.