Comunidade açoriana nos EUA vive Páscoa com menos intensidade

7 de abr. de 2023, 00:00 — Joana Medeiros

À semelhança do que acontece nos Açores, também na diáspora açoriana, em concreto na comunidade de Fall River, estas últimas semanas foram tempo de introspeção e preparação para a mais importante festa do calendário cristão.Porém, conforme explica o presidente da Casa dos Açores de Nova Inglaterra, esta é uma festa que, ao longo do tempo, tem vindo a alcançar um peso diferente na comunidade açoriana residente em Fall River, sobretudo naqueles que não se sentem tão próximos das suas raízes.Tal acontece pelo facto de existirem outras festas com mais impacto na comunidade, como é o caso do Dia de Ação de Graças, feriado muito importante para a grande maioria dos norte-americanos, e conhecido por ser uma data em que as pessoas se reúnem para demonstrarem sua gratidão a Deus.De acordo com Francisco Viveiros, a verdade é que a celebração do dia de Ação de Graças tem vindo a ter um destaque superior na comunidade de uma forma geral quando em comparação com as festividades cristãs, na qual se inclui o Natal e, naturalmente, a Páscoa, celebrada no próximo domingo.No que diz respeito aos motivos que justificam esta adesão em massa a um feriado que está longe de ser português, este emigrante açoriano explica que está em causa a possibilidade de juntar toda a família, uma vez que as empresas norte-americanas, de uma forma geral, têm mais facilidade em interromper o seu funcionamento no dia de Ação de Graças do que no Natal ou na Páscoa.Assim, na Páscoa “juntam-se só aqueles que não vão trabalhar”, adianta o presidente da Casa dos Açores de Nova Inglaterra, referindo ainda que, na sua experiência pessoal, esta era uma festividade que vivia com “muito mais intensidade” nos Açores, na paróquia da Fajã de Baixo, a qual servia.Por outro lado, uma vez que o lado mais profano da Páscoa apenas se faz sentir através da comida, dos doces ou da já habitual “caça ao ovo” que deixa os mais novos entretidos, Francisco Viveiros não deixa de mencionar algumas das principais vivências das comunidades mais próximas que mostram o quão viva está ainda a açorianidade e o espírito cristão.Inspiradas nas romarias quaresmais que alimentam esta vivência cristã na ilha de São Miguel, Francisco Viveiros destaca a romaria realizada em Fall River, onde, todas as Sextas-feiras Santas (como hoje), é realizada “a maior romaria com homens e mulheres”, contando com centenas de pessoas que, durante um dia, percorrem as igrejas locais.Já em Bristol, cidade vizinha, esta tradição é vivida de uma forma diferente, embora não menos intensamente. Existindo um grupo de romeiros conhecido por percorrer as ruas durante uma semana, tal como acontece em São Miguel, e que integra homens que, quando viviam em São Miguel, eram já romeiros nas suas paróquias.Durante esse tempo, estes romeiros percorrem grande parte das igrejas que se encontram nas proximidades, embora a legislação norte-americana imponha alguns limites na forma como esta caminhada religiosa se desenrola.“É uma semana com características muito próprias. Por exemplo, os romeiros não podem andar no caminho, têm que andar nos passeios, e para atravessarem a Route 6, uma rua já com algum movimento, é preciso que a polícia seja avisada e que o trânsito seja parado para eles passarem. (…) Na hora da pernoita, se estes romeiros levarem consigo a criança que carrega a cruz, essa criança não pode dormir com os adultos nem que o pai vá. É expressamente proibido uma criança dormir com adultos”, realça Francisco Viveiros.Também na igreja de Santo António de Pataca, refere o presidente da Casa dos Açores de Nova Inglaterra, as missas de preparação para a Páscoa são vividas com muita intensidade e com muitas semelhanças ao que acontece na ilha de São Miguel, desde o Lava-Pés até à missa de Aleluia, havendo espaço para missas quer em português, quer em inglês.No que diz respeito à gastronomia, no dia de Páscoa prevalecem na mesa dos açorianos de Fall River a massa sovada, o arroz doce e a carne assada, deixando de parte iguarias típicas de outras regiões do país, como o cabrito ou o leitão.Este é também um momento reservado ao término das catequeses, dando lugar, no espaço de poucas semanas, às comunhões, outra ocasião responsável por unir a família e por, em alguns casos, colocar os reencontros de Páscoa em segundo plano.Em acréscimo, o facto de o tempo começar a melhorar nos Estados Unidos da América nesta altura, sendo que a neve se começa a dissipar e a dar lugar a outros aspetos da natureza que ficaram encobertos pelo inverno, leva a que muitas famílias aproveitem para passear, “nem que seja para ir até Newport ver e cheirar o mar”, lembrando os dias que eram vividos nas ilhas açorianas.