Compensar assimetrias das regiões autónomas é um ato de justiça
Hoje 09:13
— Lusa/AO Online
O antigo comissário europeu António Vitorino defendeu que é justo
compensar as assimetrias das regiões autónomas, mas destacou também as
oportunidades que existem para os Açores na Europa, nas áreas da defesa e
dos oceanos.“Há que reconhecer, desde logo, os constrangimentos e
especificidades regionais, que impõem e justificam mecanismos
diferenciadores de acesso aos recursos públicos em termos que se adaptam
aos condicionalismos da própria Região, mas corrigir e compensar as
assimetrias é não só um ato de justiça, mas também uma forma de
demonstrar que o resultado final beneficia todos, aqueles que contribuem
e aqueles que recebem”, afirmou, referindo-se à revisão da Lei das
Finanças Regionais.António Vitorino falava no sábado à noite, em
Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, numa sessão comemorativa das
primeiras eleições legislativas dos Açores, que se realizaram há 50
anos.Numa altura em que se volta a discutir a revisão da Lei das
Finanças das Regiões Autónomas, reivindicada pelos Açores e pela
Madeira, o antigo ministro disse que a alocação de recursos é “sempre um
teste à maturidade do estado de desenvolvimento e consolidação das
autonomias regionais” e um teste à “disponibilidade e vontade de
solidariedade e coesão nacional de todos os protagonistas”.António
Vitorino considerou que a autonomia regional evoluiu das “desconfianças
iniciais” à “maturidade atual”, mas ressalvou que é “um processo de
construção gradual”, que tem de ser “uma realidade viva, adaptada às
circunstâncias, às necessidades e também às oportunidades”.Para o
antigo comissário europeu, os Açores têm oportunidades em duas áreas que
ganham destaque na Europa: a defesa e os oceanos.O posicionamento
da atual administração norte-americana trouxe uma “crise de confiança na
relação transatlântica”, numa altura em que o eixo de gravidade da
União Europeia já se tinha deslocado para leste, alegou António
Vitorino.Para o orador, este cenário coloca aos países de vocação
atlântica, como Portugal, “uma responsabilidade acrescida na busca de
soluções políticas e operacionais”, que evitem uma “rutura” dos Estados
Unidos com a Europa, que minimizem um “progressivo descomprometimento
americano” e que valorizem “a relevância do Atlântico na defesa e
segurança de todo o continente europeu”.“Basta pensar, aliás aqui
onde estamos hoje, nas operações dos submarinos russos no Atlântico, no
papel da ‘shadow fleet’ russa na violação das sanções impostas à venda
de petróleo da Federação Russa por parte da União Europeia e dos Estados
Unidos e, sobretudo, na função crítica dos cabos submarinos que
garantem as comunicações entre todo o continente europeu e as Américas”,
apontou.O antigo comissário europeu defendeu, por isso, que a
frente atlântica “não pode ser descurada” nas prioridades de defesa e
segurança europeias, salientando que “os Açores representam, neste
contexto, uma componente essencial da defesa e segurança da União
Europeia”.Outra “área de grande interesse para os Açores”, segundo
António Vitorino, é a Agenda Europeia dos Oceanos, que levou mais de
cinco anos a ser preparada e foi agora adotada. No dia em que se
comemoraram 50 anos das primeiras eleições legislativas regionais nos
Açores, o antigo ministro lembrou a “elevada taxa de participação nesse
ato eleitoral”, com “mais de dois terços dos açorianos” a dirigirem-se
às urnas, e destacou a evolução da autonomia.“Creio que podemos
dizer, com sinceridade, que vencidas aquelas resistências iniciais, as
últimas décadas têm demonstrado que a progressiva consolidação das
autonomias regionais permitiu aquilo que hoje é a consolidação e um grau
de maturação, cujas vantagens estão à vista de todos”, avançou.António
Vitorino destacou a introdução do círculo de compensação nas eleições
legislativas regionais, que considerou “uma solução inovadora no
contexto nacional”, citada no continente como “fonte de inspiração,
tendo em vista garantir a representatividade, mas também a ligação dos
eleitos aos eleitores”.