Companhia das Ilhas abre a única livraria do ‘triângulo’ açoriano nas Lajes do Pico
12 de nov. de 2020, 18:32
— Lusa/AO Online
“O espaço é pequeno”,
frisa sempre Carlos Alberto Machado, gerente da livraria, mas chega
para albergar todos os títulos da chancela Companhia das Ilhas, que
criou em 2011, quando “estávamos em plena crise da chamada ‘Troika’”.São
cerca de 15 metros quadrados, “repartidos entre loja e armazém”, e “até
é mais armazém do que loja”, diz o livreiro, entre risos, sobre a única
livraria no 'triângulo' do grupo central dos Açores, formado pelo
Faial, São Jorge e o Pico.“Cabem duas ou três pessoas de cada vez, não está mau”, considera, já que “tem uma montra com boa leitura, com um vidro enorme”.Tem
também espaço suficiente para os mais de 200 títulos que a editora
açoriana editou em menos de uma década, bem como para livros de outras
editoras portuguesas.Até ao final do ano,
espera ter, em loja, “cerca de 500 títulos diferentes”, entre as edições
próprias e as outras, mas o livreiro faz questão de lembrar que os
leitores podem sempre fazer encomendas.“Entre ontem e hoje, ainda a livraria não tinha aberto, já tínhamos encomenda de cinco livros”, conta.Para
Carlos Alberto Machado, “é possível que o espaço, que é muito
pequenino, possa servir como referência, a par das outras livrarias que
existem no arquipélago”.Essa é uma questão
particularmente relevante num arquipélago que, até hoje, tinha apenas
duas livrarias locais, uma em Ponta Delgada, em São Miguel, e a outra em
Angra do Heroísmo, na ilha Terceira.“Há
alguns espaços com venda de livros, mas, tecnicamente não são livrarias,
são papelarias ou supermercados com venda de livros”, esclarece.A
livraria da Companhia das Ilhas surge, assim, nas Lajes do Pico, um
concelho com cerca de 4.500 habitantes, na encosta sul da ilha, que
somava, em 2019, pouco mais de 13.600 pessoas.Mas
espera servir, também, as vizinhas ilhas do Faial e de São Jorge, que
formam, com o Pico, o ‘triângulo’ do grupo central açoriano.Em
plena crise pandémica, o projeto nasce de uma “espécie de tendência
suicida”, diz Carlos Alberto Machado, numa altura em que “a situação é
má” e “tende a piorar” e é por isso mesmo que decidiu dar este passo.“Se
nós nos deixamos ir pela onda, nos deixamos submergir pela onda do
desânimo, do desinteresse, do medo, dessas coisas todas, morremos ainda
mais depressa, todos. Aqui é um problema de sobrevivência”, vaticina.Para
o empresário, “há um lado de risco, obviamente, mas é também nas
alturas em que as pessoas estão mais necessitadas de coisas que vale a
pena fazer essa tentativa de esforço”.Olhando
para o panorama regional, o livreiro admite que “todos têm imensa
dificuldade, mas são ainda pontos de referência para a cultura do livro,
que é extremamente importante”.“Nós temos
a esperança de poder contribuir também, tal como eles, para ser uma
referência, em particular na ilha, aqui no ‘triângulo’ e, em geral,
quando a ilha ficar aberta, como é normal, à visita de toda a gente”,
concretizou.Na aproximação ao Natal,
reconhece que “as pessoas compram [mais] bombons e brinquedos”, mas,
como lhe disse um amigo, “agora não têm desculpa” para não comprar
livros: “O espaço existe e tem livros. Por outro lado, fazemos
facilmente encomendas”.Em relação à livraria Companhia das Ilhas, inaugurada hoje, tem “esperança que a coisa corra bem”.“As pessoas têm manifestado curiosidade e interesse… Vamos ver”, remata.Entre
os mais de 200 títulos editados pela Companhia das Ilhas, destacam-se
as obras completas de Vitorino Nemésio, em parceria com a Imprensa
Nacional – Casa da Moeda, e uma forte aposta em autores regionais, como
Nuno Costa Santos, Álamo Oliveira, Urbano Bettencourt, Luiz Fagundes
Duarte e Onésimo Teotónio Almeida.