Como uma manhã de sol se transformou no dia mais negro dos EUA
11 de Setembro
10 de set. de 2021, 12:00
— Lusa/AO online
Pelas 8:00 (mais cinco horas em Lisboa), 19 ‘jihadistas’ da Al-Qaida, na sua
maioria sauditas, já tinham passado o controlo de segurança nos
aeroportos de Boston, Washington-Dulles e Newark.Embarcaram
em quatro voos para a Califórnia armados com facas para sequestrar os
aviões e atacar o “coração” da principal potência mundial.Joseph
Dittmar, 44 anos, um especialista em seguros, está numa reunião no
105.º andar da Torre Sul do World Trade Center (WTC). Às 08:46, as luzes
da sala começam a piscar.Na
sala sem janelas, as 54 pessoas presentes "não viram nada, não sentiram
nada, apenas as luzes a cintilar", disse Dittmar, uma das testemunhas
entrevistadas pela agência France-Presse (AFP) 20 anos mais tarde.Só
do 90.º andar, para onde desceram quando receberam uma ordem de
evacuação do edifício, é que veem o buraco que o primeiro avião provocou
entre os pisos 93 e 99 da Torre Norte."Foram
os piores 30-40 segundos da minha vida, (...) ver estes enormes buracos
negros no edifício, chamas vermelhas como nunca tinha visto na minha
vida e nuvens de fumo cinzento e negro a sair dos buracos”, contou à
AFP."Ver
mobília, papéis, pessoas levadas pelo vento... Coisas terríveis,
terríveis. Estava tão assustado", disse, engolindo as lágrimas.Lá
em baixo, o ‘chef’ Michael Lomonaco sai do centro comercial subterrâneo
do WTC - onde tinha ido antes de subir para o seu restaurante “Windows
on the World” no 107.º piso da Torre Norte – e olha horrorizado para o
topo da torre em chamas."Pude
ver pessoas a abanar toalhas de mesa brancas das janelas" do
restaurante, disse. Dos 72 empregados que estavam no restaurante, nenhum
sobreviveu.Dittmar
retoma a descida pelas escadas - uma decisão que lhe vai salvar a vida –
convencido de que se trata de um acidente, como milhares de pessoas em
Nova Iorque. O próprio Presidente dos EUA, George W. Bush, é informado
disso ao visitar uma escola primária na Florida.“Algures
entre o 74.º e o 75.º andar", a escada "começa a balançar
violentamente. Os corrimãos soltam-se da parede, os degraus ondulam sob
os nossos pés como ondas no oceano, sentimos um muro de calor,
cheira-nos a querosene", contou. Dittmar
e os colegas ainda não sabiam nessa altura que outro avião tinha
acabado de atingir a Torre Sul, mesmo por cima deles, entre os 77.º e
85.º pisos. Eram 09:03.George
W. Bush, que estava a ler uma história para crianças na Florida, é
avisado pelo seu chefe de gabinete. "A América está a ser atacada",
sussurra-lhe ao ouvido. Quando
Dittmar e os colegas chegam ao rés-do-chão, após cerca de 50 minutos, o
piso está repleto de aço torcido, cimento e manchas de sangue. "Sabíamos
o que era", disse Dittmar, com pudor. As imagens de pessoas
encurraladas pelas chamas a mergulhar no vazio estão entre as mais
chocantes do dia.Já
na rua, caminham durante alguns minutos antes de ouvirem o ensurdecedor
desmoronamento da Torre Sul, que tinham acabado de deixar para trás. E,
quase imediatamente, o "grito" de milhares de nova-iorquinos.Al
Kim, 37 anos, um paramédico de Brooklyn, tinha acabado de chegar ao WTC
para ajudar a levar feridos para o Hotel Marriott, localizado entre as
torres. Escapou ‘in extremis’."Não
conseguia respirar, havia tanto fumo no ar. Lembro-me de usar a minha
camisa para cobrir a boca. Nem conseguia ver as minhas mãos diante dos
meus olhos", disse à AFP quando visitou o Memorial do 11 de Setembro
pela primeira vez, este verão, a alguns passos do local onde quase
morreu.A
explosão de calor do colapso da torre queima-lhe as narinas e as
sobrancelhas. Uma espessa camada de cinzas cobre-lhe todo o corpo.A escuridão é completa, mas Kim ouve as vozes de dois colegas, que consegue localizar. Avançam
de mãos dadas, "como crianças de escola", através dos escombros, das
chamas, dos pedidos de ajuda e dos alarmes individuais dos bombeiros
presos nos escombros, concebidos para explodir automaticamente quando
não se movem durante muito tempo.No
Pentágono, a sede do Departamento de Defesa, nos arredores de
Washington, Karen Baker, 33 anos, está convencida de que está "no lugar
mais seguro do mundo". Mas essa certeza é abalada às 09:37."Houve
um grande estrondo e depois sentimos um abanão", recordou à AFP esta
especialista em comunicação de crises. "Na altura, pensávamos que era
uma bomba".Era o terceiro avião sequestrado que tinha acabado de se despenhar no lado ocidental do Pentágono.Às
10:03, o quarto avião cai numa zona rural na Pensilvânia, a cerca de 20
minutos de voo de Washington, depois de alguns passageiros terem
enfrentado os sequestradores. Tomaram essa decisão quando souberam o que
estava a acontecer em Nova Iorque em telefonemas para familiares.Em Wall Street, às 10:28, depois de arder durante 102 minutos, a Torre Norte do WTC acaba por ruir.A
bordo do Air Force One, George W. Bush, é levado para uma base aérea na
Luisiana em vez de Washington, porque a capital federal não é
considerada segura.Socorristas
e jornalistas começam a referir-se às ruínas fumegantes das Torres
Gémeas como "Ground Zero". Ainda sem números de vítimas, é já evidente
que este é o maior ataque terrorista coordenado da história.Ao
fim da tarde, quando o metropolitano retoma o serviço, Joseph Dittmar
nota que o “silêncio é total” no comboio em que segue para casa dos
pais. Todos estão em estado de choque.Às
20:30, Bush anuncia um número ainda incerto de "vários milhares" de
mortos – serão contabilizados 2.753 no WTC, 184 no Pentágono e 40 em
Shanksville (Pensilvânia), além dos 19 sequestradores. Bush adverte que, na caça aos culpados, os EUA não farão "nenhuma distinção" entre "os terroristas e aqueles que os abrigaram"."Nenhum
de nós esquecerá este dia, mas iremos em frente e defenderemos a
liberdade e tudo o que é bom e correto no nosso mundo", conclui.De
volta a casa, Karen Baker apercebe-se da dimensão do que aconteceu ao
abraçar o marido e os dois filhos pequenos. Todos “estavam a soluçar”.Al Kim não estará em casa em Brooklyn antes da meia-noite. Toma um banho, deita-se durante algumas horas e sai cedo. "Havia muito que fazer, funerais para assistir (...). não havia tempo para parar e pensar”, disse à AFP.