Comissária Europeia defende que os Açores têm de utilizar os fundos para ficarem menos dependentes

Hoje 10:30 — Filipe Torres

A Comissária Europeia responsável pelos Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos, Maria Luís Albuquerque, considera que os Açores têm de usar os fundos europeus para reduzir a sua dependência desses apoios e criar riqueza através do investimento privado.“Os Açores, como eu diria que todos os países que são beneficiários, têm de utilizar os fundos para deixarem de ser beneficiários, porque deixar de ser beneficiário significa ser mais rico, ter mais capacidade de criação de riqueza, que eu acho que é o objetivo de todos nós.”No âmbito da conferência “Pensar os Açores na Europa: mobilizar investimento para crescer”, que pertence ao ciclo “Pensar os Açores” da SEDES Açores, a Comissária Europeia portuguesa defende que o financiamento público continua a ser essencial para infraestruturas, mas sublinha que o futuro passa por identificar projetos com valor económico e capacidade de gerar crescimento.Espaço tem papel fundamental no século XXIA economia do mar, a investigação científica, a segurança alimentar, as questões climáticas e até o setor espacial surgem entre as áreas com maior potencial para a Região. A responsável europeia pela tutela dos serviços financeiros destaca a posição estratégica dos Açores para participar na nova economia do espaço e considera que a insularidade coloca desafios em matéria de energia, conectividade e custos, mas também oferece oportunidades únicas.Maria Luís Albuquerque sublinha que há muito a ideia de falar de pequenas e médias empresas, defendendo igualmente a necessidade de apoiar as micro empresas.“Temos, naturalmente, de apoiar as pequenas e médias empresas e as microempresas, porque elas criam emprego, são muito importantes no território. Mas devemos garantir que aquelas que têm um bom negócio, têm as condições para crescer. E que não vamos, em nenhum momento do nosso crescimento, desincentivá-las de qualquer forma”, disse.Maria Luís Albuquerque alertou para a dificuldade que muitas empresas europeias enfrentam na fase de crescimento, quando procuram expandir-se e chegar ao mercado.Segundo a responsável, apesar de a Europa dispor de talento e de ideias inovadoras, muitas dessas empresas acabam por se transferir para os Estados Unidos, onde encontram um mercado mais eficiente e maiores oportunidades de financiamento. Assim, salientou que talento europeu e empresas europeias acabam por ser apoiados com capital europeu para criar riqueza fora do continente, classificando esta situação como um problema profundamente institucional.Necessário mudar de mentalidade e assumir mais riscoA nível mundial, Maria Luís Albuquerque enumerou algumas áreas que considera serem fundamentais para o futuro.“Ainda que haja uma enorme incerteza em relação ao que será o futuro, há alguns pontos que são já conhecidos e consensuais. Sabemos que a energia é um tema fundamental.Sabemos também que a tecnologia, a transformação digital e a inteligência artificial terão sempre um papel central no futuro. E sabemos que a segurança e a defesa, mesmo que a perceção da ameaça varie, constituem elementos essenciais para todas as regiões do mundo”, salientou.Maria Luís Albuquerque defende que a economia precisa de uma maior cultura de risco, comparando o investimento em empresas inovadoras ao trabalho de formação dos clubes de futebol.“Temos de ter a mesma atitude dos clubes de futebol. Os clubes investem na formação de milhares e milhares de crianças e jovens, embora a esmagadora maioria nunca venha a ter uma carreira de sucesso. Mas, no meio de todos eles, pode surgir um Cristiano Ronaldo”, disse.“Com as empresas inovadoras acontece algo semelhante. Uma grande parte pode não resultar, mas basta que uma delas seja transformadora para fazer a diferença no futuro.Por isso, temos de adotar esta mentalidade e perceber que assumir risco é profissional e indispensável para o crescimento económico”, realça.A Comissária Europeia portuguesa salienta ainda que será anunciado “muito em breve” a atualização das Estratégias para as Regiões Ultraperiféricas (RUP).“É uma atualização dessa estratégia [feita em 2022], precisamente para definir, dentro dos mecanismos existentes de apoio europeu e das políticas europeias, como elas devem ser adaptadas às realidades ultraperiféricas, que não são todas iguais. As Canárias não são os Açores, nem a Madeira são os Açores. Mas vai haver uma estratégia publicada muito em breve, em que, precisamente, esses mecanismos serão ajustados às necessidades, aos desafios e às oportunidades que estas regiões representam.”Vítor Fraga defende mais investimento privado europeuO presidente da SEDES Açores, Vítor Fraga, destacou que, ao longo das últimas décadas, os Açores beneficiaram significativamente dos fundos europeus, que contribuíram para a melhoria das infraestruturas e da qualidade de vida na Região.Fraga salientou ainda o papel desempenhado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que classificou como uma oportunidade extraordinária de investimento público.Contudo, considerou que os desafios atuais são diferentes dos do passado, defendendo que a questão central passa agora por saber como uma RUP pode captar mais investimento privado europeu e reduzir a dependência dos fundos públicos.Segundo Vítor Fraga, enquanto os recursos públicos são limitados, o investimento privado possui capacidade para gerar riqueza, criar emprego qualificado e transformar a economia regional.“Os fundos públicos são limitados; pelo contrário, os fundos privados têm capacidade de se quantificar, gerar riqueza, criar emprego e transformar uma economia”, disse.Para o presidente da SEDES Açores, o futuro da Região não se constrói apenas na defesa das conquistas já alcançadas, mas também na criação de novas oportunidades, através da atração de talento, da promoção da inovação e do reforço da competitividade da economia. Nesse contexto, atribuiu especial relevância à União da Poupança e dos Investimentos, por considerar que obriga os Açores a olhar para a Europa não apenas como uma fonte de financiamento, mas também como uma fonte de capital e de criação de riqueza.Vítor Fraga defendeu, por isso, que a Região Autónoma dos Açores deve marcar presença nos espaços onde se discutem as políticas europeias relacionadas com o investimento, a competitividade, a inovação e a economia, sublinhando que o futuro dos Açores não se decide apenas internamente, mas também nas instâncias europeias.Luís Garcia quer nova fase de parceria entre Açores e UEO Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), Luís Garcia, defendeu ontem que a relação entre os Açores e a União Europeia deve entrar numa nova fase de parceria, baseada no reconhecimento do contributo estratégico da Região para os objetivos europeus e na manutenção de políticas de coesão ajustadas às especificidades ultraperiféricas. Destacou que a integração europeia foi um dos instrumentos mais importantes para a consolidação do projeto autonómico ao longo dos últimos cinquenta anos, permitindo modernizar infraestruturas, qualificar recursos humanos e reforçar a capacidade científica e tecnológica da Região.Considerando que os resultados alcançados são evidentes, Luís Garcia defendeu que este já não é um tempo de justificar a importância dos Açores ou a utilidade dos instrumentos de coesão, mas sim de aprofundar uma parceria estratégica que valorize o papel do arquipélago na Europa. Sublinhou ainda que os Açores não são apenas beneficiários das políticas europeias, acrescentando valor à União Europeia através da sua posição geoestratégica no Atlântico, da investigação científica e tecnológica desenvolvida na Região e da dimensão marítima que conferem ao projeto europeu. Perante os atuais desafios geopolíticos, energéticos, climáticos e de segurança, o Presidente da ALRAA considerou que a relevância estratégica dos Açores é hoje ainda mais evidente.Referindo-se à preparação do próximo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia, Luís Garcia reconheceu a crescente importância das áreas da segurança e da defesa, mas advertiu que estas novas prioridades não podem comprometer o investimento na coesão territorial, defendendo que a missão da convergência territorial está longe de estar concluída. Neste contexto, destacou a importância das acessibilidades para o desenvolvimento económico e social da Região, sublinhando que a mobilidade deve continuar a ocupar um lugar central nas políticas europeias dirigidas às Regiões Ultraperiféricas. O Presidente da ALRAA salientou igualmente o papel da inovação, da ciência e da tecnologia no futuro dos Açores, considerando que o investimento nestas áreas é fundamental para criar emprego qualificado, atrair investimento e fixar jovens na Região.