Comissão já recolheu 326 testemunhos de abusos contra crianças na Igreja
10 de mai. de 2022, 12:24
— Lusa/AO Online
“Temos
326 testemunhos recolhidos até ontem [segunda-feira], de mais homens do
que mulheres, de todos os grupos etários, de todos os níveis de
escolaridade e temos todas as modalidades de abuso representadas no
inquérito”, afirmou a socióloga, que integra a comissão criada em
janeiro e coordenada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht.Na
abertura da conferência “Abuso Sexual de Crianças: Conhecer o Passado,
Cuidar do Futuro”, organizada pela Comissão Independente para o Estudo
dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, Ana
Nunes de Almeida realçou que “além dos 326 testemunhos diretos, somando
o número de outras pessoas que dizem ter sido vítima de abuso também,
esse número sobe para muitas centenas de crianças e adolescentes”.A
investigadora e membro da comissão garantiu também que “as entrevistas
com dioceses estão a decorrer a muito bom ritmo” e que têm sido
recolhidos relatos de experiência de contactos com abusos. Quanto
ao acesso aos arquivos da Igreja, Ana Nunes de Almeida explicou que
essa tarefa estará a cargo de uma equipa de historiadores sob a
liderança de Francisco Azevedo Mendes, docente na Universidade do Minho.Embora
o trabalho desta Comissão Independente não vise a exposição direta de
abusadores ou de instituições onde tenham sido cometidos abusos sexuais
contra crianças, a socióloga e investigadora do Instituto de Ciências
Sociais da Universidade de Lisboa reiterou a importância do conhecimento
mais aprofundado da realidade.“Conhecer
a realidade é sempre reconhecer a sua complexidade intrínseca, é uma
condição ‘sine qua non’ para intervir. Não há mudança para melhor sem o
contributo da ciência. Façamos da causa da luta aos abusos contra
crianças uma causa civilizacional”, afirmou, na sessão que abriu a
conferência realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.Num
balanço dos primeiros três meses de trabalho, feito no passado dia 12
de abril, o antigo ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio, que
integra igualmente a Comissão, precisou que entre os 290 testemunhos até
então validados, 16 ainda não prescreveram e, por isso, foram remetidos
ao Ministério Público.As
denúncias e testemunhos podem chegar à comissão através do
preenchimento de um inquérito 'online' em darvozaosilencio.org, através
do número de telemóvel +351917110000 (diariamente entre as 10:00 e as
20:00), por correio eletrónico, em geral@darvozaosilencio.org e por carta para "Comissão Independente", Apartado 012079, EC Picoas 1061-011 Lisboa.A
comissão integra ainda o psiquiatra Daniel Sampaio, a assistente social
e terapeuta familiar Filipa Tavares e a realizadora Catarina
Vasconcelos.