Comissão em fase de relatório após 37 audições e 7 depoimentos escritos
Caso gémeas
5 de fev. de 2025, 11:31
— Lusa/AO Online
Entre 17 junho de 2024 e 24 janeiro
de 2025, os deputados ouviram Lacerda Sales ser acusado de alegadamente
ter interferido no pedido de marcação de consulta das crianças. Uma
das pessoas que lhes apontou responsabilidades foi a sua antiga
secretária Carla Silva, que disse ter contactado, a pedido de Lacerda
Sales, o Hospital Santa Maria, em Lisboa, onde as crianças foram
tratadas em 2020 com um dos medicamentos mais caros do mundo.Também
a diretora do Departamento de Pediatria do Hospital Santa Maria, Ana
Isabel Lopes, e a neuropediatra responsável pelo tratamento das
crianças, Teresa Moreno, afirmaram que o pedido de marcação de consulta
em 2019 foi feito em nome de Lacerda Sales.O
antigo governante foi a primeira e a última pessoa a ser ouvida na
comissão de inquérito que arrancou em maio, na sequência de um pedido
potestativo do Chega. Na primeira audição, a 17 de junho, Lacerda Sales disse que não estava disponível para
“servir de bode expiatório num processo político-mediático a qualquer
custo”.Já a 24 de janeiro, negou
“qualquer interferência pessoal ou política” para favorecer as crianças e
confirmou que o caso foi abordado numa reunião com Nuno Rebelo de
Sousa, filho do Presidente da República. Nesta
audição, de cerca de uma hora, o antigo secretário de Estado Adjunto e
da Saúde foi interpelado por vários deputados, tendo-se remetido ao
silêncio na maioria das vezes, após alegar o estatuto de arguido. Lacerda
Sales é um dos arguidos no processo, juntamente com Nuno Rebelo de
Sousa e o ex-diretor clínico do Hospital Santa Maria Luís Pinheiro.Nuno
Rebelo de Sousa recusou-se prestar esclarecimentos e não respondeu a
qualquer das perguntas colocadas pelos deputados. Perante as perguntas
dos vários partidos, a 03 de julho de 2024, limitou-se a responder
sucessivamente: “pelas razões referidas, não respondo”.O
único dos arguidos que acabou por falar foi Luís Pinheiro, que, a 07
de janeiro, disse que não foi contactado por “ninguém superior” a
Lacerda Sales e recusou ter pressionado o agendamento da primeira
consulta. O ex-diretor clínico do Hospital Santa Maria disse também que a
origem dos utentes não era determinante para as decisões clínicas e o
processo não foi acelerado.Além dos
profissionais de saúde e diversos responsáveis, foi ouvida também a mãe
das crianças e o chefe da Casa Civil do Presidente da República.Às
audições presenciais juntaram-se também os depoimentos por escrito de
mais sete pessoas, entre os quais os dos ex-ministros Manuel Pizarro
(Saúde) e Francisca Van Dunem (Justiça) ou do ex-primeiro-ministro,
António Costa.O Presidente da República,
que remeteu a decisão sobre uma eventual pronúncia para depois de
concluídas as restantes audições, já disse que não vai voltar a
pronunciar-se sobre a matéria.Marcelo Rebelo de Sousa justificou a decisão por não terem surgido novos dados relacionados com sua intervenção.Após
as dezenas de audições, a deputada relatora – Cristina Rodrigues, do
Chega – tem agora até 05 de março para entregar a versão preliminar do
relatório com as conclusões da comissão parlamentar de inquérito. Os
partidos poderão depois apresentar propostas de alteração e a versão
final do relatório tem de ser aprovada pelos deputados da comissão até
25 de março, para o documento ser depois debatido e votado em plenário
da Assembleia da República. A comissão de
inquérito ao caso das gémeas luso-brasileiras viu-se obrigada ainda pelo
Supremo Tribunal Administrativo (STA) a mudar o nome e a passar a usar a
designação oficial completa: “Comissão Parlamentar de Inquérito para
verificação da legalidade e da conduta dos responsáveis políticos
alegadamente envolvidos na prestação de cuidados de saúde a duas
crianças (gémeas) tratadas com o medicamento ‘Zolgensma’”.A Assembleia da República recorreu da decisão do STA, considerando que o tribunal invadiu competências do parlamento.