Comissão do Conselho da Europa quer reforço das operações de busca
Migrações
11 de abr. de 2025, 14:58
— Lusa/AO Online
O documento foi aprovado por unanimidade pelos membros da Comissão das
Migrações, Refugiados e Pessoas Deslocadas da Assembleia Parlamentar do
Conselho da Europa e irá em junho a votação na sessão plenária da
Assembleia Parlamentar da organização.Sob o
nome “Salvar vidas de migrantes no mar e proteger os seus direitos
humanos”, o relatório refere ter como objetivo “chamar a atenção dos
países do Conselho da Europa e da União Europeia para a necessidade
moral de pôr fim às mortes de migrantes no Mediterrâneo e acabar com as
violações escandalosas dos direitos humanos, algumas em países com os
quais a União Europeia e vários Estados-membros têm acordos e
cooperação, como é o caso da Líbia e Tunísia”.Elaborado
pelo deputado socialista português Paulo Pisco, o documento apela a que
os Estados-membros “cumpram o direito internacional no que respeita às
convenções que protegem a vida, os refugiados e o direito humanitário
aplicado no mar e em terra”, adianta a comissão, em comunicado.O
relatório apela também para que haja “mais meios para as operações de
busca e salvamento e maior cooperação entre todos os atores públicos e
privados”, como autoridades costeiras e organizações não-governamentais
(ONG), no domínio da busca e salvamento.Por
outro lado, faz um alerta para que os Estados-membros parem de
criminalizar as ONG e pessoas da sociedade civil que ajudem os migrantes
e pede que sejam “revistos os acordos de cooperação entre a União
Europeia e alguns Estados-membros com países como a Líbia e a Tunísia”,
relativamente aos quais existem inúmeros documentos que “comprovam uma
violação sistemática e grosseira dos mais elementares direitos humanos”.O
relatório sublinha que “existe uma vergonhosa crise humanitária
contínua nas rotas marítimas de migração para a Europa”, lembrando que
“dezenas de milhares de migrantes morreram nos últimos 25 anos” e refere
que a Europa está “a falhar” as suas responsabilidades legais e morais
de resgatar migrantes.“Abandonar estas pessoas desesperadas às mãos de traficantes de migrantes é como dar-lhes licença para matar”, aponta.As
políticas migratórias restritivas que alguns Estados seguem e o aumento
dos controlos de fronteiras não são solução, para esta comissão do
Conselho da Europa.“Salvar a vida dos
migrantes no mar não colocará em risco a estabilidade das instituições e
das economias nacionais”, garante no relatório.“Pelo
contrário, a Europa deve ver a migração como uma resposta, entre
outras, para aliviar o envelhecimento demográfico e a escassez de
mão-de-obra na Europa e, por isso, deve dar prioridade a uma política de
migração adequada, gerida e segura”, defende.Apesar
de várias ONG se terem dedicado a salvar migrantes em risco, sobretudo
no Mediterrâneo, a comissão do Conselho da Europa considera que o gesto
não só não é suficiente como critica os “obstáculos e até
criminalização” que lhes foram impostos por Estados-membros.“As
ONG não podem substituir as obrigações dos Estados-membros de
proporcionar operações de busca e salvamento sustentáveis e
coordenadas”, defende, acrescentando que deve ser feito pleno uso de
todos os navios capazes de resgatar pessoas em perigo e fornecer apoio,
“tornando o registo de navios de ONG menos oneroso” e “permitindo-lhes
operar no seu território e a partir dos seus portos e informando-os
sobre casos de perigo”.Preocupados com as
“violações recorrentes do direito internacional no mar, incluindo vários
casos de rejeições” de migrantes e devoluções à força, os membros da
comissão lembram que a agência de fronteiras da União Europeia (Frontex)
e vários Estados-membros foram acusados de terem facilitado essas
ações, “apesar de saberem dos perigos que esses migrantes enfrentariam
ao regressar”.Uma outra tendência “muito
preocupante” para a comissão é a “transferência da responsabilidade das
operações de busca e salvamento por parte dos Estados-membros para as
autoridades da guarda costeira da Líbia e da Tunísia, países inseguros
para os migrantes”.Por isso, considera
“crucial respeitar e implementar integralmente o direito internacional
humanitário e marítimo”, garantindo operações de busca e salvamento mais
seguras.Por outro lado, os membros da comissão consideraram “ser essencial” o combate ao tráfico de migrantes.“Para
atingir um objetivo tão ambicioso e inverter a situação, os
Estados-membros (…) devem promover coletivamente percursos jurídicos
seguros para a migração através de canais cuidadosamente controlados e
seguros, incluindo para as pessoas que necessitam de proteção
internacional”, defende o relatório.Além
disso, os Estados-membros e as instituições internacionais “devem
reconhecer as águas europeias como espaços marítimos humanitários, para
proporcionar passagens seguras aos migrantes e refugiados e mantê-los
afastados das redes criminosas de passadores”.Isto,
adianta o documento, deve incluir “zonas dedicadas à busca e salvamento
e uma melhor coordenação entre Estados, ONG e agências como a Frontex”.A comissão das migrações do Conselho da Europa quer ainda uma mudança nas políticas de migração.“A
proteção das fronteiras e o respeito pelos direitos humanos dos
migrantes são compatíveis”, garante, sublinhando que uma alteração
legislativa não vai conduzir a uma migração em massa.“Prevenir
a morte de migrantes no mar é uma questão moral e cultural partilhada e
obrigação global que exige uma ação urgente e coordenada dos governos
europeus e das instituições internacionais”, conclui.O
Conselho da Europa foi criado em 1949 para defender os Direitos
Humanos, a Democracia e o Estado de Direito e integra atualmente 46
Estados-membros, incluindo todos os países que compõem a União Europeia.