"Combinação de fatores" levou a sobretensão e incapacidade de resposta
Apagão
17 de jun. de 2025, 17:14
— Lusa/AO Online
Para
além de falhas por parte do operador da rede elétrica espanhola a nível
de gestão e planificação, houve também falhas na resposta de outros
operadores e distribuidores de energia em Espanha, com suspeitas de
incumprimento dos protocolos previstos para situações de sobrecarga de
tensão, segundo a ministra da Transição Ecológica de Espanha, Sara
Aagesen.A ministra disse ainda que a
comissão para investigar o apagão na Península Ibérica criada pelo
Governo espanhol concluiu, por outro lado, que não houve qualquer
ciberataque no dia 28 de abril, como o executivo espanhol já tinha
adiantado anteriormente.Sara Aagesen
falava numa conferência de imprensa em Madrid, no final da reunião
semanal do Conselho de Ministros de Espanha, em que apresentou as
conclusões da comissão de investigação ao apagão de 28 de abril criada
pelo Governo espanhol.Segundo a ministra,
que vai hoje à noite reunir-se em Lisboa com a homóloga portuguesa,
Maria da Graça Carvalho, houve na manhã do apagão – que ocorreu às 11:33
de 28 de abril, hora de Portugal Continental - e também nos dias
anteriores, uma série de oscilações no sistema de geração de
eletricidade de Espanha e foram ativados os protocolos e medidas
habituais para responder a esses fenómenos por parte da empresa Red
Eléctrica (REE), a operada da rede espanhola.Estas
medidas para responder às oscilações - que passam por "malhar a rede"
ou reduzir a exportação de eletricidade para a fora da Península, para
França, por exemplo - provocam, no entanto, também elas, um aumento da
carga de tensão, e a resposta exige também, por isso, medidas para o
controlo da sobrecarga.No entanto, sempre segundo a ministra, a programação e previsão da Red Eléctrica não foi suficiente e houve "má planificação".E
houve, em paralelo, atuações "indevidas" de outras empresas, uma vez
que centrais de "geração síncrona" (ciclos combinado, nucleares ou
hidráulicas) solicitadas a operar pela Red Elétrica não estavam a
absorver a tensão como deviam.Por outro
lado, acrescentou a ministra espanhola, a investigação concluiu que
houve centrais de produção que se desligaram de forma também indevida,
quando não o deveriam ter feito ao abrigo dos protocolos e normas em
vigor, em desconexões que não podiam ser a resposta normal e automática
perante um cenário de sobrecarga de tensão."Os
grupos de geração que tinham de ter controlado a tensão e que, além
disso, muitos eles, estavam a ser retribuídos economicamente para isso,
não absorveram toda a [energia] reativa que se esperava num contexto de
elevadas tensões", afirmou Sara Aagesen, que explicou que a desconexão
de instalações provocou, também ela, ainda maior sobrecarga.Segundo
a ministra, todas as dez centrais programadas pela Red Elétrica para
estar em operação e responder às oscilações e sobrecargas de tensão no
sistema, "tiveram algum tipo de incumprimento" na absorção de energia
reativa que lhe correspondia no dia do apagão. "Faltava
no sistema capacidade de regular a tensão", embora haja em Espanha
"parque de geração suficiente para responder” a uma situação como a que
ocorreu, disse Sara Aagesen.Assim, como
consequência desta sucessão de eventos e falhas, chegou-se, nos momentos
antes do apagão, a "um ponto de não retorno, com uma reação em cadeia
incontrolável", quando um "fenómeno de sobrecarga de tensão", muito
elevada, levou a desconexões sucessivas das instalações de produção de
eletricidade que provocaram, elas próprias, "novas desconexões",
sintetizou a ministra. As desconexões começaram em centrais do sul e sudoeste de Espanha, nomeadamente, Granada e Badajoz.Segundo
o Governo espanhol, todas as oscilações no sistema elétrico detetadas
nos dias, horas e minutos anteriores ao apagão foram consideradas
habituais e dentro de parâmetros normais, com exceção de uma,
identificada numa instalação de geração no sudoeste de Espanha, às 12:03
de 28 de abril (11:03 em Lisboa).De
acordo com a ministra, foi uma oscilação "não típica ou conhecida", mas
não deu mais detalhes e não confirmou as informações publicadas na
imprensa espanhola nas últimas semanas de que se tratava de uma
instalação de geração fotovoltaica.Face às
conclusões e recomendações da comissão espanhola que investigou o
apagão, o Governo de Espanha vai aprovar na próxima semana legislação
para responder às falhas identificadas e prevenir novos casos
semelhantes, indicou ainda Sara Aagesen.