Coliseu juntou 500 jovens para falar sobre saúde mental
5 de jun. de 2025, 09:40
— Carolina Moreira
O Coliseu Micaelense acolheu a tertúlia “E se...”, protagonizada
pelo humorista António Raminhos que, através da sua experiência pessoal,
se propôs a falar sem tabus com cerca de 500 jovens estudantes sobre a
saúde mental e também a prevenção e luta contra o suicídio.No
evento, que também contou com a presença da psiquiatra Raquel Pruxa e do
psicólogo Luís Carneiro, ficou o apelo aos jovens para que “peçam
ajuda, sem vergonha e sem qualquer problema, porque estamos cá para
ajudar”. Ajuda essa que, segundo os profissionais, é facultada não só
nas escolas, como nos centros de saúde através dos médicos de família e
dos enfermeiros de saúde infantil, e também no serviço de urgência do
hospital que é “a porta de entrada para referenciação quanto ao
suicídio”.O painel de convidados de António Raminhos ficou completo
com a presença do jovem Afonso Subica, presidente da associação de
estudantes da Escola Secundária das Laranjeiras, em Ponta Delgada, que
falou sobre bullying, a pressão que os jovens sentem para serem bem
sucedidos e ainda a necessidade de “falarem com os seus pares”.“Devido
ao sistema de ensino errado que temos, ficamos com muito medo de o
futuro não correr da forma que esperamos. Temos muito peso nos ombros,
muitas vezes somos nós que o colocamos em nós próprios, mas também nos
exigem sempre mais e mais. Mas quero deixar a mensagem de que ‘tá tudo
bem se aquele teste não correu bem, ‘tá tudo bem se não entrei na
universidade no primeiro ano. As coisas hão de se fazer a seu tempo”,
salientou.À saída da tertúlia, os cerca de 500 estudantes que se
deslocaram ao Coliseu na companhia dos professores aplaudiram a
iniciativa.“Gostei. Acho que é um assunto que se deve abordar muito
bem hoje em dia, porque cada vez mais vemos muitos jovens adolescentes e
mesmo crianças a fazerem bullying umas com as outras e a saúde mental é
uma coisa que nós devemos priorizar na nossa vida, acima de tudo. E
temos de pensar no outro e colocarmo-nos na sua pele”, considerou Luís
Couto.Aos 18 anos, o jovem relata que sofreu “bastante” de bullying e que acabou por “guardar muito para mim”.“Até
hoje, os meus encarregados de educação não sabem disso. O meu medo era
transmitir-lhes muita preocupação e dar-lhes muita dor. Por isso guardei
muito para mim. Fechava-me muita vez no meu quarto, estive numa
psicóloga durante algum tempo e lá me consegui desenrascar. Mas foi
muito difícil lidar com isso, mas estou aqui e acho que consegui superar
isso sozinho”, relata.Já Francisco Cary, com apenas 16 anos, lidou
recentemente com o suicídio de um dos seus melhores amigos e pede uma
melhor resposta. “Na minha opinião, a Linha de Saúde não vai resolver
o problema de ninguém. O suporte que tive foi basicamente ‘amanhem-se’.
Uma pessoa não lida. Sobrevive e espera para ver o que acontece a
seguir. A situação foi uma injustiça, principalmente para quem cá ficou
sem ele. Eu próprio fiquei a pensar o que poderei ter feito de mal para
ele se ter suicidado”, conta.Questionado sobre o que poderá estar a
agravar a saúde mental dos jovens, Francisco reflete: “Já pareço a minha
mãe, mas acho que este excesso de informação e a internet fazem mal à
cabeça das crianças. As pessoas só consomem estupidez e pronto. Não sei
como explicar o que vai na cabeça dos jovens”, diz.