Coleção do espólio de Francisco de Lacerda “extravasa o sentido de posse individual”
Hoje 09:46
— Paula Gouveia
Acaba de adquirir em leilão um lote contendo documentação de Francisco
Lacerda que se irá juntar a parte do espólio do maestro que já possui na
sua coleção. Qual o interesse deste lote em concreto para a coleção que
já possui sobre o maestro, e de que modo a documentação que já possui
permite compreender o percurso desta personalidade açoriana? O
interesse consiste no enriquecimento do espólio com novos suportes
documentais que permitem identificar e estudar melhor o extraordinário e
singular percurso do Maestro Francisco Lacerda. A dispersão documental
constitui, por si, um obstáculo à preservação e ao conhecimento.O
início desta coleção ocorreu em 2006, data em que a Leiloeira do Palácio
do Correio Velho levou a leilão um importante e vasto conjunto
documental do Maestro Francisco Lacerda: cartas, telegramas e bilhetes. O
acervo contém cartões assinados por nomes como Amélia Rey Colaço, o
Visconde das Mercês, Jaime Cortesão, Vitorino Nemésio e Raul Brandão,
entre outros. Dele consta, também, diversa correspondência com artistas
estrangeiros, entre os quais Rodney Gallop, Vincent d’Indy e Georges
Ganuchat, conservando a maioria dos postais e envelopes os selos da
época. Completam o conjunto centenas de fotografias impressas que
relatam a sua vida artística e pessoal, cartazes e recortes de jornais - documentação que o Governo Regional dos Açores considerou constituir
“fontes de relevante interesse para a história cultural dos Açores”. A
agência Lusa, atenta à sua importância, deu nota desse leilão e
identificou o Arquivo do Maestro.Licitei este lote. Posteriormente,
procurei enriquecer o acervo com novas aquisições, em leilões ou por via
direta. Destaco o curioso e importante conjunto de cartas de Claude
Debussy para o Maestro Lacerda, adquirido a um familiar deste, que veio
valorizar o espólio. Mais recentemente, licitei na Bestnet Leilões um
lote constituído por documentação diversa, com particular significado
por valorizar o conjunto.A documentação destas coleções está a ser estudada (ou já foi)?Ao
longo deste processo, dei nota pública da minha disponibilidade para
que o acervo seja consultado - no intuito do seu conhecimento - e/ou
depositado em instituição regional, na premissa do tratamento,
organização e conservação (como referi em artigos no Açoriano Oriental e
no Correio dos Açores). Por via dessa nota, alguns investigadores
contactaram-me para a consulta da documentação, nomeadamente o Doutor
Duarte Rosa, que viria, mais tarde, a incluir na sua tese de
doutoramento cópia das cartas de Francisco Lacerda a Tomás Borba,
provenientes da coleção que guardo - não digo que possuo, porque esta
coleção, na minha ótica, extravasa o sentido de posse individual para se
afirmar como bem coletivo, pertença da história cultural e social de
uma comunidade.Que outras coleções tem na sua posse?Tenho
dedicado os últimos 25 anos à procura de livros e manuscritos antigos
relacionados com personalidades de referência da nossa história, seja na
literatura, seja na política, com particular atenção às de âmbito
regional. Terei muito gosto, em tempo oportuno, de as partilhar.Que espólio tem surgido no mercado dos leilões com interesse para os Açores?Recentemente,
têm surgido, nos leilões nacionais, algumas cartas autógrafas de Antero
de Quental que, embora na sua maioria já publicadas, constituem, no meu
modesto entender, documentos de elevada relevância. Essa importância
coaduna-se com o elevado interesse que uma personalidade da dimensão de
Antero de Quental desperta.A Região tem estado atenta a esta
realidade? Os Açores têm sabido salvaguardar património com interesse
para a compreensão do seu passado?A Região faz o que o seu limitado
orçamento para a cultura permite. Denoto vontade e conhecimento por
parte dos seus técnicos, e sublinharia o notável trabalho que a
Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada desempenha com os parcos
meios que dispõe.Na minha perspetiva, falta alguma imaginação à
tutela, ao não explorar mecanismos como o mecenato cultural para mitigar
as suas limitações orçamentais. Essa forma, fomenta o envolvimento da
sociedade civil e confere capacidade e rapidez, no propósito maior de
agilizar aquisições para salvaguarda do património da Região. Existem
modelos, como o da Fundação Serralves, que, adaptados à nossa escala e
realidade, podem congregar público e privado na missão desse
enriquecimento e promoção cultural.O que o motiva a investir em património arquivístico e na sua salvaguarda?Missão e identidade, colecionar é preservar.