CNE acusa Facebook de falta de vontade em cumprir lei nacional
12 de set. de 2019, 18:06
— Lusa/AO online
“Não há uma
vontade de cumprir a lei [nacional] por parte do Facebook”, disse Carla
Luís num debate sobre desinformação e ameaças online na perspetiva das
eleições legislativas de 06 de outubro em Portugal.A
CNE, cuja função é aplicar a legislação nacional, tem encontrado
“problemas” com o Facebook quando pretende atuar contra a publicação de
publicações de propaganda patrocinada.“Após
marcação das eleições não é permitido fazer propaganda patrocinada. Não
há uma lista de meios admissíveis ou não-admissíveis, não podem é
divulgar propaganda paga. Nas redes sociais, o problema surge com
‘posts’ patrocinados. Seja com um ou com 10 mil euros, é proibido pela
lei portuguesa”, explicou a responsável.“Começámos
a instruir processos, para sancionar quem promove o anúncio e o meio
que o divulga, e começámos a ter problemas com Facebook, que faz tábua
rasa da lei portuguesa”, afirmou.Carla
Luís apontou uma evolução que se traduz numa iniciativa do Facebook de
estabelecer critérios que definem um anúncio como político, país a país,
que implica que “a verificação seja feita de acordo com a jurisdição
nacional”, requerendo, por exemplo, a identificação do nome e morada de
quem patrocina a propaganda.O problema,
explicou, é que o Facebook “sobrepõe os seus ‘padrões da comunidade’ à
lei nacional”, avaliando as publicações “com critérios que estabeleceu e
que não contêm a lei portuguesa”.Para
ilustrar uma das diferenças entre os critérios do Facebook e os
princípios contidos na legislação portuguesa, Carla Luís apontou que, na
‘biblioteca de anúncios’ recém-criada pela rede social - onde se pode
consultar que anúncios estiveram quanto tempo ‘online’, por quem e por
quanto foram patrocinados -, surge classificado como “anúncio político”
uma publicação em que se lê “Women should have equal rights” (“As
mulheres devem ter direitos iguais”).Nos
últimos anos, e depois do escândalo Cambrige Analytica do uso abusivo de
dados pessoais de utilizadores do Facebook Cambrige Analytica, para
interferir em campanha políticas, a rede social fundada por Mark
Zuckerberg tem anunciado iniciativas para combater a desinformação.Relativamente
às eleições portuguesas, a rede anunciou nomeadamente parcerias com
parceiros de 'fact-checking' (verificação da informação).Para
o jornalista Paulo Pena, autor de uma série de trabalhos sobre ‘fake
news’ e desinformação, “isto não é de todo suficiente”.“A
crise não se resolver corrigindo uma informação de cada vez […] É
preciso analisar a origem, quem a produz, por que meios, qual a forma de
difusão… O ‘fact-checking por si só, muito menos o decidido pelo
Facebook e encomendado às empresas, não chega”, disse, no mesmo debate.Em
resposta a perguntas de jovens na audiência, Paulo Pena ressalvou que
se opõe ao “policiamento” de conteúdos por atores institucionais – “é
muito perigoso, ninguém quer um ministério da verdade orwelliano” -, mas
assegurou que a resposta também não assenta apenas na autorregulação
das plataformas, que decidem, elas próprias, que factos verificam.O
jornalista considerou por outro lado que há “negligência” em Portugal
no combate à desinformação, salientando que “não há no Governo português
um gabinete responsável pelos ‘media’, só os ‘media’ de capitais
públicos como a RTP e a Lusa” e que a própria Entidade Reguladora para a
Comunicação Social (ERC) está limitada na sua ação pela legislação
nacional.Este aspeto foi confirmado por
Tânia Soares, da ERC, também presente no debate, que explicou que a
entidade só tem competência para verificar órgãos de comunicação social
devidamente licenciados.“Já solicitámos
uma redefinição de órgão de comunicação social. A ERC regula órgãos de
comunicação social […] Nos ‘sites’ que não o são, a nossa capacidade
fica limitada no atual contexto, com a atual legislação”, afirmou,
acrescentando que ainda assim a entidade só pode ter intervenção
“através dos grupos europeus” que reúnem este tipo de entidade e
trabalhando com plataformas.O debate, que
decorreu hoje em Lisboa, foi organizado pela Representação da Comissão
Europeia em Portugal e pela organização Democracy Reporting
International, uma organização que estuda o fenómeno da desinformação
política em vários países europeus.