"Clube Micaelense emerge de duas Lojas Maçónicas"

18 de abr. de 2008, 12:25 — Paula Gouveia

O director do Museu Maçónico Português, em entrevista mantém o secretismo sobre os protagonistas da Maçonaria nos Açores, mas faz algumas revelações sobre a influência que a Maçonaria exerceu durante o século XX nas ilhas e a forma como o continua a fazer nos nossos dias. A que conclusões chegou depois de consolidada a investigação sobre a Maçonaria nos Açores? A Maçonaria teve um papel muito importante nos Açores, no apoio social, fundando inúmeras escolas e entidades de carácter social. Talvez a mais significativa seja a Sociedade Amor da Pátria, que nasce a partir de uma Loja, e em São Miguel o Clube Micaelense, que emerge de duas Lojas Maçónicas que se unem. Representavam duas sociedades que juntas vão dar origem ao Clube Micaelense. A União Açoriana era de tendência cartista e a Loja 11 de Agosto de 1829 de tendência saldanhista, primeiro, e depois de tendência setembrista. Eram duas linhas que dividiam a família liberal portuguesa na primeira metade do século XIX - uma que defendia que a Constituição do país deveria ser dada pelo rei, e outra que defendia que a Constituição deveria ser criada pelo povo e imposta ao rei. Duas linhas - uma mais moderada e outra mais extremista. Que papel desempenhou a Maçonaria em São Miguel? Nas escolas agrícolas Maria Cristina e com algumas escolas João de Deus. As escolas agrícolas Maria Cristina em São Miguel tiveram, no princípio do século XX, um papel fundamental para o desenvolvimento agrícola de São Miguel. Mas também houve outras associações de carácter agrícola com nomes como o do Barão das Laranjeiras, que tinham o mesmo objectivo. Que evolução teve a Maçonaria e como funciona hoje nos Açores? A partir de 1935 as Lojas Maçónicas foram ilegalizadas pelo Estado Novo. Praticamente desarticuladas, algumas Lojas ainda funcionaram - estou-me a lembrar da Ribeira Grande, a Acção Renovadora, com o Agostinho Sá Vieira. Mas tiveram uma acção que se foi reduzindo e que se desarticulou. Entre 1935 e 1940 praticamente todas deixaram de funcionar, o que não quer dizer que os maçons não tivessem alguma actividade individual. No entanto, a partir de 25 de Abril a Maçonaria retomou a sua actividade pública. E hoje está presente. E como é que marca presença ? Está presente nas Lojas que reúnem homens livres que estão disponíveis para debater tudo. Quando digo homens livres, estou-me a referir a pessoas de todos os partidos e religiões. Continua a ter uma organização estruturada e activa? A Maçonaria estrutura-se em Lojas e essas Lojas estão interligadas nacionalmente e dependem do Grande Oriente Lusitano. Há muitos maçons nos Açores? Há bastantes. Não posso dizer quantos, mas há bastantes. Que influência exercem e como a exercem? Exercem influência através do exemplo e da sua actividade, ao transmitirem para a sociedade os valores da liberdade, igualdade e fraternidade - que continuam extremamente actuais. Poderíamos adicionar a tolerância, que nos dias que correm faz muita falta. Transmitindo esses valores, exercem a sua influência. É assim que se faz sentir a Maçonaria. Nos Açores há mulheres maçons? Actualmente não. Nos Açores a Maçonaria feminina, que eu tenha conhecimento, nunca teve Lojas. Quem são os líderes da Maçonaria nos Açores? Isso não lhe digo. Posso dizer-lhe que o grão-mestre da Maçonaria do Grande Oriente Lusitano é o dr. António Reis. Por princípio, não divulgamos nem nomes, nem números. É uma das regras da Maçonaria - há 200 anos e hoje. Em que locais se encontram? Não posso dizer. Não é uma questão de segredo, é uma questão de disciplina. Mas posso dizer-lhe que numa vulgar sala. Na sua opinião é importante que a Maçonaria persista? Há valores que continuam a fazer falta hoje - a sua defesa e o seu desenvolvimento. Portanto, em meu entender continua a ser perfeitamente válida a aposta da Maçonaria. Hístória, Maçonaria e Fotografia O autor de “A Maçonaria Portuguesa e os Açores (1792-1935)” é, desde 2003, director do Museu Maçónico Português, cargo que acumula com as funções de presidente da Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, de membro do Conselho Cultural da Associação Industrial Portuguesa e de consultor do Instituto do Património (IPPAR). É licenciado em História pela Universidade Nova e possui mestrado, precisamente com a tese sobre a relação da Maçonaria Portuguesa e os Açores no período de 1792 a 1935. Além da obra lançada ontem em Angra do Heroísmo, publicou em 2003, o livro sobre Gomes Freire de Andrade . Actualmente é membro da equipa de investigação sobre o 5 de Outubro de 1910, trabalho que será publicado em livro este ano.