Cientistas portugueses integram projeto europeu para monitorizar polinizadores
2 de nov. de 2022, 16:40
— Lusa/AOonline
“Um ano de amostragens de
polinizadores em Portugal, realizadas no âmbito do projeto internacional
Spring, permitiu descobrir várias espécies de interesse e com
distribuição limitada, e reforçar a necessidade urgente de implementação
de uma metodologia de amostragem universal para monitorizar estes
insetos, essenciais, por exemplo, para a produção de alimentos”,
informou a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
(FCTUC).No comunicado enviado à agência
Lusa, a investigadora da FCTUC Sílvia Castro realçou a importância da
participação no projeto, o que, “além de contribuir com perspetivas
diversas de implementação da metodologia, estimulará a formação de
jovens entomólogos [biólogos que estudam os insetos], tão necessários em
Portugal”.Concluído o primeiro ano de
amostragens, os trabalhos de campo serão retomados em março de 2023,
decorrendo nos próximos meses várias ações de formação e a identificação
das amostras recolhidas em 2022.“Além do
processo de preservação e estudo das amostras, os participantes terão
oportunidade de aprender a distinguir espécies de abelhas e de
moscas-das-flores”, referiu a FCTUC.Liderado
por alemães do Helmholtz Centre for Environmental Research, o projeto
lança as bases para um plano europeu de monitorização de polinizadores,
ao “reforçar a capacidade de identificação taxonómica de insetos
polinizadores dos Estados-Membros” da União Europeia.Em Portugal, a monitorização é realizada em cinco locais no continente e um da Região Autónoma dos Açores.Este
projeto-piloto "permite testar as metodologias básicas de monitorização
de abelhas selvagens, borboletas e moscas-das-flores, usando transectos
[faixas de terreno] padronizados, percorridos por cientistas e
voluntários, e armadilhas coloridas", designadas 'pan-traps'.Em
Portugal, além do Centro de Ecologia Funcional da UC, participam no
Spring o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), a
Associação Biopolis – CIBIO, o Tagis – Centro de Conservação das
Borboletas de Portugal, o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações
Ambientais da Universidade de Lisboa, o município de Oeiras e a
Universidade dos Açores.Sónia Ferreira, da
Biopolis – CIBIO, afirmou que “existem efetivamente ainda algumas
espécies por descrever, em Portugal, e um número muito elevado de
espécies sobre as quais se sabe muito pouco relativamente à sua biologia
e ecologia”.Como exemplos de "espécies
com interesse" já colhidas nas 'pan-traps', Albano Soares, do Tagis,
referiu a 'andrena foeniculae', explicando que se trata de “um endemismo
ibérico descrito pela primeira vez em 2020, ainda com poucos registos
em Portugal e Espanha, e que já foi detetada durante os transectos”.“A
espécie de abelha 'lasioglossum buccale' contava apenas com três
registos até à data em Portugal, [mas] esta monitorização já permitiu
detetá-la em novas localidades”, salientou o entomólogo.Para
Conceição Conde, da Divisão de Vigilância Preventiva e Fiscalização do
Alentejo do ICNF, que está a testar a metodologia no Parque Natural da
Serra de São Mamede, com apoio do Tagis, “a importância dos insetos
polinizadores e o desejo de os conhecer melhor são uma enorme motivação”
neste trabalho.Nos Açores, a
monitorização “permitiu analisar comunidades de polinizadores pouco
diversas, mas com vários endemismos, sendo este o único local de todo o
projeto Spring representativo dos ecossistemas insulares”, enfatizou,
por sua vez, Mário Boieiro, do Grupo de Biodiversidade dos Açores.