Cientistas identificam circuitos cerebrais envolvidos na mania após uma lesão
25 de ago. de 2020, 09:45
— Lusa/AO Online
Os resultados do trabalho, hoje publicados na
revista da especialidade Journal of Clinical Investigation, foram
divulgados em comunicado pela Fundação Champalimaud, que agrega o Centro
Champalimaud, no qual o grupo de investigação liderado por Albino
Oliveira-Maia desenvolveu o estudo, em colaboração com cientistas da
Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Segundo
os investigadores, o trabalho permitirá testar tratamentos mais
eficazes para a perturbação bipolar, que se manifesta, alternadamente,
por estados de mania e depressão."Os
nossos resultados podem vir a ser utilizados para orientar novos ensaios
de estimulação cerebral para tratamento de mania", sustentou, citado no
comunicado, o primeiro autor do estudo, Gonçalo Cotovio, a fazer o
doutoramento no laboratório de Albino Oliveira-Maia.Apesar
de terem identificado os circuitos no cérebro que são afetados pela
mania causada por lesões decorrentes, por exemplo, de um traumatismo
craniano ou de um Acidente Vascular Cerebral, os cientistas consideram
que os resultados podem ser promissores para diagnosticar e tratar com
mais eficácia a mania enquanto manifestação da doença bipolar."Embora
ainda não saibamos se as mesmas redes cerebrais estão disfuncionais na
mania primária [característica da perturbação bipolar], o estudo da
mania lesional poderá ser uma abordagem útil para esclarecer a
neuroanatomia da mania primária na perturbação bipolar, uma vez que
poderá revelar o envolvimento de regiões e redes neuronais que não foram
identificadas em estudos anteriores", salientou o psiquiatra Albino
Oliveira-Maia.Os autores do estudo
concluíram, a partir de uma técnica de neuroimagiologia que permite
localizar as redes neuronais associadas a défices neurológicos, que "a
maioria das lesões ocorre em locais de cérebro com ligações a um grupo
específico de regiões do córtex cerebral que regulam o humor e as
emoções"."Descobrimos que as localizações
das lesões associadas à ocorrência de episódios de mania se caracterizam
por uma forte conectividade com três áreas do córtex cerebral do lado
direito: o córtex orbitofrontal, o córtex temporal inferior e o polo
frontal", descreveu Gonçalo Cotovio.De
acordo com o investigador, "este padrão específico de conectividade
funcional mostrou ser semelhante em grupos independentes de doentes com
mania lesional e distinto dos padrões observados em outras síndromes
neuropsiquiátricas causadas por lesões cerebrais".Num
estudo anterior, o grupo liderado pelo investigador Albino
Oliveira-Maia já tinha confirmado que lesões cerebrais que levam à mania
"situam-se habitualmente no hemisfério direito do cérebro", cuja
"disfunção tem sido associada a várias perturbações emocionais". Gonçalo
Cotovio entende que a Estimulação Magnética Transcraniana Repetitiva,
uma técnica não-invasiva e indolor que é usada no tratamento de casos de
depressão resistentes à medicação, poderá ser útil e benéfica como
terapêutica para a mania, quando incidindo em zonas do córtex
pré-frontal direito, do córtex orbitofrontal direito e do córtex
temporal inferior direito.Nos tratamentos
com este tipo de estimulação, "uma bobina eletromagnética é aplicada num
local preciso da superfície da cabeça do doente para transmitir pulsos
eletromagnéticos capazes de modificar a atividade neuronal no alvo
cerebral", explica o comunicado da Fundação Champalimaud, que utiliza a
técnica desde 2017 no seu centro clínico.