Cientistas identificam biomarcador para melhorar eficácia de tratamento do cancro do pâncreas
9 de set. de 2022, 11:37
— Lusa/AO Online
O
biomarcador em questão são as chamadas vesículas extracelulares,
"mini-células produzidas por praticamente por todas as células,
incluindo as cancerosas"."Se os cancros
muito agressivos, como o adenocarcinoma ductal pancreático, utilizam as
vesículas extracelulares para desarmar o sistema imunitário, poderemos
desenvolver novas terapias que tenham como alvo as vesículas
extracelulares derivadas do tumor, tornando assim esses cancros menos
resistentes aos tratamentos", assinala, citado em comunicado da Fundação
Champalimaud, o líder do trabalho, Bruno Costa-Silva, que coordena um
laboratório que se debruça sobre os sistemas biológicos que suportam a
doença oncológica.O adenocarcinoma ductal
pancreático é o principal tipo de cancro do pâncreas, "está a aumentar" e
poderá até 2030 ser "a segunda causa de morte por cancro", refere o
comunicado. A cirurgia continua a ser "o
tratamento mais eficaz", mas para a maioria dos doentes (70% a 80%) "não
é uma opção viável". Os tratamentos podem incluir, ainda, radioterapia e
quimioterapia.Atualmente, a avaliação da
resposta dos doentes aos tratamentos baseia-se em exames de imagiologia
(ressonância magnética e tomografia computorizada) e na mediação dos
níveis de biomarcadores do cancro no sangue.Porém,
os exames vulgarmente usados "são incapazes de detetar pequenos tumores
e de diferenciar os tumores benignos dos malignos" e "mesmo o mais
comprovado biomarcador" do adenocarcinoma ductal pancreático "está
ausente" em 5% a 20% dos doentes, adianta o comunicado da Fundação
Champalimaud.Em estudos anteriores, a
equipa de Bruno Costa-Silva concluiu que as vesículas extracelulares
(que têm material genético, proteínas e açúcares) que circulam no sangue
podem ser usadas para "detetar, prever e localizar" as metástases
(tumores secundários que derivam de tumores primários) do cancro do
pâncreas, que "tem uma taxa de sobrevivência a cinco anos de 9%".O
novo estudo, hoje publicado na revista da especialidade Cells Journal,
verificou que as vesículas extracelulares de doentes com adenocarcinoma
ductal pancreático "apresentavam níveis significativamente superiores de
certas proteínas específicas em relação às vesículas extracelulares de
pessoas saudáveis", na palavras do oncologista Nuno Couto, que também
participou no trabalho.As proteínas em
causa são as imunoglobulinas G (IgG), anticorpos produzidos pelo sistema
imunitário do organismo para combater agentes infecciosos, como
bactérias, vírus ou parasitas, ou células cancerígenas.A
equipa de cientistas da Fundação Champalimaud descobriu, a partir de
"minúsculas amostras de sangue" de doentes, que as vesículas
extracelulares "positivas para as IgG aumentam durante a progressão da
doença" pancreática e "diminuem em resposta à terapia".Estas
vesículas extracelulares "representam um novo biomarcador, que alarga o
repertório de ferramentas disponíveis para avaliar o estado do tumor,
em particular para os muitos doentes cujas células tumorais não
apresentam o biomarcador 'standard' atual e para os quais as imagens"
dos exames - ressonância magnética e tomografia computorizada - são o
"único indicador de resposta ao tratamento", salienta o mesmo comunicado
da Fundação Champalimaud.Os cientistas
descobriram, ainda, que as IgG se ligam às vesículas extracelulares dos
doentes com adenocarcinoma ductal pancreático através de um antigénio
(proteína estranha ao organismo) conhecido do cancro, pelo que
"suspeitam que as vesículas extracelulares que apresentam esse antigénio
sejam libertadas pelo próprio cancro, fazendo com que as IgG se liguem
às vesículas extracelulares em vez de se ligarem ao seu alvo designado,
as células cancerosas".