Cientistas ganham financiamento para expedição ao mar profundo dos Açores
4 de mar. de 2021, 15:57
— Lusa/AO Online
"O financiamento agora garantido pelo Grupo de Investigação do Mar
Profundo do (centro de investigação) Okeanos da Universidade dos Açores
vai permitir a realização de uma expedição científica para a exploração
de zonas desconhecidas da Dorsal Médio-Atlântica, ao longo de 17 dias",
diz, em comunicado, o investigador Telmo Mourato, que vai liderar a
missão. A Dorsal Médio-Atlântica "é
uma cordilheira vulcânica que se estende desde o Ártico até à Antártida,
sendo a estrutura topográfica dominante do Oceano Atlântico e a
cordilheira mais extensa do mundo. A expedição vai cartografar os fundos
desta região e caracterizar as comunidades de corais e esponjas que
habitam as cristas e montes submarinos na Dorsal. Pretende ainda
identificar os fatores ambientais que determinam a distribuição espacial
da biodiversidade bentónica de profundidade", adianta o comunicado.
Baptizada “iMAR: Avaliação integrada da distribuição dos
Ecossistemas Marinhos Vulneráveis ao longo da Dorsal Médio-Atlântica na
região dos Açores” a expedição é financiada pelo projeto Eurofleets+, do
programa Horizonte 2020, que visa reunir uma frota de navios de
investigação avançada e integrada para melhorar a coordenação e promover
o uso económico da infraestrutura de pesquisa marinha. O Eurofleets+
engloba 27 navios de investigação, sete veículos operados remotamente
(ROVs), cinco veículos submarinos autónomos (AUVs) e uma unidade
portátil de telepresença. De acordo
com a nota conjunta do Centro Okeanos e do Azores Deep-Sea Research,
esta expedição ao mar profundo dos Açores "vai permitir explorar zonas
nunca antes visitadas" com recurso a "equipamentos e meios tecnológicos
complexos, embarcações oceanográficas de grandes dimensões e tripulações
especializadas, o que representa elevados custos económicos".
"Este tipo de meios de investigação está raramente disponível para
a comunidade científica Nacional", assinala o comunicado.
Telmo Morato, investigador do IMAR (Instituto do Mar) e do centro
Okeanos da Universidade dos Açores, destaca a importância do
financiamento obtido através do Eurofleets+, considerando que "as
equipas de investigação do mar profundo em Portugal têm tido alguma
dificuldade no acesso a navios de investigação de grande dimensão, que
possibilitem trabalhar em águas mais profundas e mais distantes e com os
meios tecnológicos adequados". "Os
nossos projetos de investigação regionais, nacionais ou europeus não
conseguem suportar os custos associados à diária de um navio destas
características, que pode rondar entre 20 e 60 mil euros", sublinha o
investigador, citado na nota. Apesar
dos "grandes avanços no conhecimento do mar profundo dos Açores"
alcançados nos últimos anos, Telmo Morato considera que "ainda há muito
por conhecer e por descobrir, pelo que a oportunidade gerada pelo
Eurofleets+ e pelo (instituto oceanográfico holandês) Royal Netherlands
Institute for Sea Research (NIOZ, na sigla original) para utilizar o
navio de investigação Pelagia nos Açores, durante a primavera de 2021",
irá "contribuir para avançar o conhecimento do mar profundo em
Portugal". Citado na nota, o Ministro
do Mar, Ricardo Serrão Santos, realça ser "mais uma etapa do percurso
rico da equipa de investigação do mar profundo do IMAR/Okeanos da
Universidade dos Açores", destacando o trabalho dos investigadores Telmo
Morato e Marina Carreiro-Silva, "pelo mérito de terem conseguido esta
bolsa" que permite "alocar, durante 17 dias, o navio de investigação
Pelagia". Marina Carreiro Silva,
co-líder do grupo de investigação e especialista em corais de águas
frias, refere igualmente que "o mar profundo dos Açores esconde uma
diversidade de comunidades biológicas única no Oceano Atlântico e
alberga extensos jardins de corais de águas frias e campos de esponjas".
O Comandante João Vicente, Chefe da Divisão de Hidrografia do
Instituto Hidrográfico (IH), refere a elevada importância desta missão
que contribuirá também para o programa SEAMAP 2030 (Mapeamento do Mar
Português) do IH. A expedição “iMAR”
visa ainda "identificar novas áreas que se enquadrem na definição de
Ecossistemas Marinhos Vulneráveis, determinar o estado ambiental das
comunidades bentónicas e quantificar o lixo marinho" para "a preservação
do património natural, o uso sustentável do mar profundo e minimizar os
impactos negativos nestes ecossistemas tão vulneráveis". Aodhán
Fitzgerald, coordenador do projeto Eurofleets +, refere que o projeto
"possibilita o acesso aos mais modernos navios de investigação,
proporcionando oportunidades para estudar locais ainda por explorar e
compreender melhor os impactos negativos nos nossos ambientes de águas
profundas". A expedição contará com a
participação de investigadores de várias instituições nacionais e
internacionais, nomeadamente o Instituto Hidrográfico, o CIIMAR da
Universidade do Porto, a Universidade de Aarhus (Dinamarca), o National
Oceanography Centre (Reino Unido), o GEOMAR (Alemanha), o P.P. Shirshov
Institute of Oceanology (Rússia), e a Universidade do Vale do Itajaí
(Brasil).