Cientistas detetam microplásticos em tecidos humanos
17 de ago. de 2020, 11:22
— Lusa/AO Online
"Nunca queremos ser alarmistas, mas é
preocupante que estes materiais não biodegradáveis, que estão presentes
em todo o lado, possam entrar e acumular-se em tecidos humanos, e não
conhecemos os possíveis efeitos na saúde", afirmou Varun Kelkar, um dos
autores da investigação. Os resultados
do trabalho são hoje apresentados numa reunião da “American Chemical
Society” (ACS - Sociedade norte-americana de Química), na qual são
apresentados até quinta-feira mais de 600 investigações científicas. A
ACS lembra, num documento sobre a investigação, que a ingestão de
partículas de plástico por animais e seres humanos tem consequências
ainda desconhecidas para a saúde.“Pode
encontrar-se plástico a contaminar o ambiente em praticamente todos os
locais do globo, e em poucas décadas deixámos de ver o plástico como
algo muito benéfico para o considerarmos uma ameaça”, diz Charles
Rolsky, que com Varun Kelkar vai apresentar a investigação na reunião da
ACS.“Há provas de que o plástico está a
entrar no nosso corpo, mas muito poucos estudos o procuram lá. E neste
momento não sabemos se este plástico é apenas um incómodo ou se
representa um perigo para a saúde humana”, adiantou o investigador. Os
cientistas definem microplástico como um fragmento de plástico com
menos de cinco milímetros de diâmetro. Os nanoplásticos são ainda mais
pequenos, com diâmetros inferiores a 0,001 milímetros. Investigações
em animais têm ligado a exposição a microplásticos e nanoplásticos a
infertilidade, inflamações e cancro, mas os resultados para a saúde das
pessoas ainda são desconhecidos.Estudos já
mostraram que os plásticos podem passar através do trato intestinal dos
humanos, mas os dois investigadores, da Universidade do Arizona,
quiseram saber se há partículas a acumularem-se nos órgãos humanos,
tendo para isso obtido 47 amostras de tecidos corporais, colhidas
nomeadamente de pulmões, fígado, baço e rins.O
método que os investigadores usaram permite detetar dezenas de tipos de
componentes de plástico dentro dos tecidos humanos, incluindo
policarbonatos, tereftalato de polietileno e polietileno. O bisfenol A,
utilizado ainda em recipientes para alimentos, apesar das preocupações
com a saúde, foi encontrado em todas as 47 amostras.Os
investigadores acreditam que o estudo é o primeiro a examinar a
existência de partículas de plástico em órgãos humanos, de pessoas com
um historial conhecido de exposição ambiental.Os
doadores de tecidos forneceram informações detalhadas sobre o seu
estilo de vida, dieta e exposições ocupacionais, o que pode ajudar a
encontrar potenciais fontes e vias de exposição a micro e nanoplásticos,
dizem os cientistas.