Cientistas descobrem como enfraquecer geneticamente bactérias que causam infeções
25 de nov. de 2019, 17:41
— Lusa/AO Online
O
trabalho, publicado na revista científica Nature Microbiology, incidiu
na bactéria 'Clostridioides difficile', na origem de muitas infeções que
ocorrem nos hospitais e que, nos casos mais graves, levam à morte dos
doentes.O estudo teve como primeiro autor Pedro Oliveira, que trabalha no Instituto de Genómica de Mount Sinai, nos Estados Unidos. O
investigador explicou à Lusa que foram inativadas na bactéria proteínas
que estão envolvidas na modificação do ADN (material genético),
procedimento que a tornou "num estado quase morta", sem reação.As
proteínas chamam-se 'metiltransferases' de ADN (MTases). Sem elas, a
'Clostridioides difficile' perde "muita da sua capacidade em formar
esporos", células que a tornam resistente "à maioria dos desinfetantes
hospitalares e rotinas de limpeza", levando-a a adquirir
"características virulentas" nem sempre combatidas com sucesso com
antibióticos.O que a equipa científica fez
foi modificar os genes que expressam as proteínas MTases. Ao deixar de
produzir MTases, a bactéria ficou mais fraca, menos resistente e menos
capaz de se propagar.Para Pedro Oliveira,
"o mais interessante" é que as proteínas MTases "são quase universais em
bactérias", isto é, podem ser detetadas não só na 'Clostridioides
difficile', mas também noutras bactérias causadoras de infeções, como a
'E.coli' e a 'salmonella', o que significa, a seu ver, que um tratamento
alternativo aos antibióticos para a 'Clostridioides difficile' pode ser
replicado noutras bactérias para "diminuir a virulência e a
patogenicidade"."No atual cenário global
de crescente resistência aos antibióticos, esta estratégia assume-se
definitivamente como um plano B promissor para combater infeções de
origem bacteriana", sustentou o investigador à Lusa.Numa próxima etapa, os cientistas propõem-se desenvolver e testar medicamentos que consigam inibir as proteínas MTases.No
estudo, o grupo de investigação sequenciou o ADN de várias estirpes da
bactéria 'Clostridioides difficile', isolada de 36 doentes, usando uma
técnica de sequenciação que permite visualizar como os genes funcionam.