Cientista portuguesa acredita que os Açores podem acolher em breve missões análogas lunares
19 de jun. de 2024, 10:35
— Lusa
“Pode
ser que, em breve, uma das agências [espaciais] esteja interessada,
quem sabe em aprender um bocadinho mais sobre geologia planetária e
realizar aqui os seus treinos e aprender mais sobre a geodiversidade que
esta ilha fantástica tem, que é agora a nossa casa também”, afirmou, em
declarações aos jornalistas, em Angra do Heroísmo, nos Açores, à margem
da Glex Summit.Engenheira geotécnica,
investigadora do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores,
Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e a primeira mulher portuguesa a
concluir o curso de cientista-astronauta do programa PoSSUM, Ana Pires
liderou a primeira missão análoga lunar em Portugal.Em
novembro, passou seis noites e sete dias na Gruta do Natal, na ilha
Terceira, com outros seis astronautas análogos de vários países.A missão CAMões, que tinha sido anunciada na Glex Summit em Angra do Heroísmo em junho de 2023, foi preparada em quatro meses.Um
ano depois do anúncio, Ana Pires voltou a subir ao palco da cimeira, na
mesma cidade, para desvendar um pouco dos segredos que a Gruta do Natal
revelou, mas os resultados científicos só serão divulgados após a sua
publicação em livro, o que deverá acontecer até meados de 2026.“Revelou
muitos mistérios, fizemos uma caracterização biológica, geológica,
geotécnica, a parte mecânica das rochas… Tudo isto vai integrar as
nossas publicações científicas. Estamos neste momento a processar todos
os dados, a trabalhar em conjunto com todos os membros da equipa, para
de facto publicarmos todos os resultados”, avançou.Não
há para já treinos espaciais marcados para a Gruta do Natal ou para
qualquer outro local nos Açores, mas a investigadora acredita que a
apresentação da missão lunar que decorreu na Terceira, no palco da Glex
Summit, com “exploradores de todo o mundo” e astronautas da NASA na
plateia pode dar um contributo para que venham a ocorrer.“Esta
missão análoga foi de facto uma oportunidade única de provar que
Portugal está mais do que preparado para ter atividades espaciais”,
apontou.Segundo Ana Pires, não só a ilha
Terceira, mas outras ilhas açorianas, como Faial, Pico e Santa Maria,
têm “locais fantásticos muito similares àquilo que encontramos na Lua e
em Marte”.“Podemos testar tecnologias,
fazer ciência e também realizar estas atividades espaciais, estes
simulacros onde, de alguma forma, fazemos uma simulação de uma missão,
confinados, isolados, a parte comportamental, mais humana, de
relacionamento... E isso é muito importante”, salientou. A
missão CAMões vai lançar, em setembro, um documentário, que revela a
experiência dos investigadores durante sete dias na Gruta do Natal e
mostra como, para além de recolherem dados científicos, criaram música e
poesia.“Ela [a gruta] contou-nos muito,
mas também aconteceram muitos sentimentos dentro da gruta, desde arte,
música...", adiantou a comandante da missão.Durante a missão, os investigadores partilharam, em direto, a experiência, com alunos de várias escolas.“Mais
do que nunca nós vemos os jovens a apostar nestas áreas, na exploração
espacial, na engenharia aeroespacial. Como foi fantástico as atividades
que fizemos dentro da gruta para estas crianças e ver como os olhos
brilham quando dizemos que é possível, que os sonhos se podem
concretizar”, sublinhou Ana Pires.A quinta
edição da Glex Exploration Summit, organizada pela Expanding World, com
a curadoria do The Explorers Club, de Nova Iorque, decorre, pelo
segundo ano consecutivo, em Angra do Heroísmo.A cimeira, que termina na quarta-feira, conta com 40 oradores convidados e cerca de 120 cientistas e exploradores inscritos.