Cidade acorda com cenário de devastação total e pelo menos 100 mortos
Beirute/Explosões
5 de ago. de 2020, 10:15
— Lusa/AO Online
As colunas de fumo eram ainda visíveis no
porto. As principais ruas do centro da cidade estavam repletas de
destroços, veículos danificados e as fachadas dos edifícios totalmente
destruídas, de acordo com uma reportagem da Associated Press.Nos
hospitais, um pouco por toda a cidade, milhares de pessoas ficaram toda
a noite à espera de notícias dos seus familiares que tinham
desaparecido ou ficado feridos. Há ainda vários relatos nas redes sociais de pedidos de ajuda para encontrar os familiares.Segundo
a Cruz Vermelha Libanesa, pelo menos 100 pessoas foram mortas e mais de
4.000 ficaram feridas. O funcionário da instituição, George Kettaneh,
avisou ainda que os números deverão aumentar. É
ainda incerto o que terá causado as explosões, que ao início parecia
ter sido desencadeada por um incêndio, com uma potência registada pelos
sensores do Instituto Geofísico Americano como um terramoto de magnitude
3.3.Foi a explosão mais poderosa alguma
vez vista na cidade, que esteve na linha da frente da guerra civil de
1975-1990 e que suportou conflitos com o vizinho Israel, atentados
esporádicos e ataques terroristas.A capa do jornal libanês al-Akhbar de hoje ilustra bem o que aconteceu na terça-feira: “O Grande Colapso”, lê-se O Líbano já estava à beira do colapso no meio de uma grave crise económica, que provocou protestos em massa nos últimos meses. A
agravar, os seus hospitais estão a enfrentar um surto de casos de
coronavírus, criando ainda mais preocupações de que o vírus se pudesse
propagar ainda à medida que os feridos da explosão inundam os hospitais.O
Ministro do Interior libanês, Mohammed Fahmi, disse a uma estação de
televisão local que a explosão terá sido causada pela detonação de mais
de 2.700 toneladas de nitrato de amónio que tinham sido armazenadas num
armazém no cais desde que foi confiscado de um navio de carga em 2014.Testemunhas
relataram ter visto uma nuvem laranja como aquela que aparece quando o
gás de dióxido de azoto tóxico é libertado após uma explosão envolvendo
nitratos.Vários vídeos mostraram, ao que
tudo indica, um incêndio em erupção nas proximidades pouco antes da
explosão, e estações de televisão locais relataram que um armazém de
fogo-de-artifício poderá estar envolvido no acidente. O
incêndio parece ter-se propagado para um edifício próximo,
desencadeando a explosão, fazendo uma enorme nuvem de cogumelo e
provocando uma onda de choque.“Foi um
verdadeiro espetáculo de horror: Não se via nada assim desde os dias da
guerra (civil)", disse o residente Marwan Ramadan, que estava a cerca de
500 metros do porto e foi projetado do chão pela força da explosão.A
explosão destruiu vários edifícios de apartamentos, deixando
potencialmente um grande número de pessoas sem abrigo, numa altura em
que muitos libaneses perderam os seus empregos e viram as suas poupanças
evaporar-se devido à crise monetária. A
explosão também levanta preocupações sobre a forma como o Líbano
continuará a importar quase todos os seus bens vitais com o seu
principal porto devastado.Há também a
questão da segurança alimentar no Líbano, um pequeno país que já acolhe
mais de 1 milhão de sírios no meio da guerra que dura há um ano.O
principal silo de cereais do porto é gerido pelo Ministério da Economia
e Comércio libanês. As imagens de drone captadas na quarta-feira pela
agência de notícias Associated Press (AP) mostraram que a explosão
rebentou os silos de grãos, despejando o seu conteúdo nos detritos e
terra.Cerca de 80% do fornecimento de trigo do Líbano é importado, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.As estimativas sugerem que cerca de 85% dos cereais do país tinham sido armazenados nos silos, agora destruídos.A
Agência Nacional de Notícias do Líbano citou o ministro da Economia e
Comércio, Raoul Nehme, que afirmou que todo o trigo armazenado nas
instalações tinha sido "contaminado" e não podia ser consumido. Contudo, Raoul Nehme insistiu que o Líbano tem trigo suficiente para as suas necessidades imediatas e que vai importar mais.A
crise económica da nação mediterrânica está enraizada em décadas de
corrupção sistémica e má governação pela classe política que tem estado
no poder desde o fim da guerra civil. Os
libaneses têm realizado protestos em massa apelando a mudanças políticas
radicais desde o Outono passado, mas poucas das suas reivindicações têm
sido satisfeitas.