Chico Buarque dedica Prémio Camões a “tantos autores humilhados e ofendidos”
24 de abr. de 2023, 17:21
— Lusa
Chico Buarque
recebeu hoje, no Palácio Nacional de Queluz (Sintra), o diploma do
Prémio Camões 2019, na presença dos chefes de Estado de Portugal,
Marcelo Rebelo de Sousa, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, de
vários membros do governo e da diplomacia dos dois países, de dezenas de
convidados, numa sessão acompanhada por uma extensa cobertura mediática
de jornalistas portugueses e brasileiros.No
discurso de agradecimento, emocionado, Chico Buarque lembrou o pai, o
historiador Sérgio Buarque de Holanda, de quem disse ter herdado “alguns
livros e o amor pela língua portuguesa”, e que contribuiu para a sua
formação política, de esquerda. Recuando
ainda mais na árvore genealógica, o músico e escritor disse que tem nas
veias “sangue do açoitado e do açoitador” e antepassados judeus
sefarditas, pelos quais disse que "um dia talvez alcance o direito à
cidadania portuguesa”. “Já morei fora do
Brasil e não pretendo repetir a experiência”, disse, mas reconheceu que
“tem uma porta entreaberta" em Portugal.Sobre
o Prémio Camões, que lhe foi atribuído em 2019, mas só recebeu quatro
ano depois, passada a administração do ex-presidente de extrema-direita
Jair Bolsonaro e uma pandemia, Chico Buarque dedicou o galardão “a
tantos autores humilhados e ofendidos, nestes anos de estupidez e
obscurantismo”.Sobre a presidência de Jair
Bolsonaro, Chico Buarque falou em “quatro anos de governo funesto que
duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar
para trás”. E lembrou que “a ameaça fascista persiste no Brasil e um pouco por toda a parte”.Na
cerimónia de hoje, o presidente do júri do Prémio Camões, o académico
Manuel Frias Martins, afirmou que o universo criativo de Chico Buarque
“tem sempre uma espécie de reserva de energia para recordar mágoas e
equívocos das relações humanas e contrariar a violência, a injustiça e o
medo”.“Que a nossa decisão [do Prémio
Camões] sirva para reforçar a união de todas as nações que se entendem
em língua portuguesa”, disse, agradecendo ao autor de "Estorvo", "Essa
gente" e "Benjamim", “toda a arte e beleza que trouxe ao longo de seis
décadas” de carreira.A cerimónia chegou a
estar marcada para abril de 2020, mas a pandemia da covid-19 obrigou a
um adiamento de entrega do prémio, remarcada para hoje, coincidindo com
as celebrações do 25 de Abril e com a visita de Estado, de cinco dias,
do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a Portugal.Na
entrega do prémio estiveram os escritores Mia Couto e Manuel Alegre –
ambos Prémio Camões -, a presidente da Fundação José Saramago, Pilar del
Rio, a cantora Carminho, a realizadora Teresa Villaverde, o coronel
Vasco Lourenço, e o ex-ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro,
entre dezenas de convidados da área da cultura.Depois
de Chico Buarque, já foram distinguidos com o Prémio Camões o professor
e ensaísta português Vítor Manuel Aguiar e Silva (2020), a escritora
moçambicana Paulina Chiziane (2021) e o escritor brasileiro Silviano
Santiago (2022).O Prémio Camões foi criado
pelos dois países para reconhecer “um autor de língua portuguesa que
tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e
cultural da língua comum”.Chico Buarque
tem este ano quatro concertos marcados em Portugal: nos dias 26 e 27 de
maio, na Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota, no Porto, e nos dias 01 e
02 de junho, no Campo Pequeno, em Lisboa.