Chefe de direitos humanos da ONU exorta líderes políticos a reverterem aumento da violência
Hoje 10:08
— Lusa/AO Online
“A
ameaça e o uso da força para resolver disputas estão a tornar-se mais
frequentes e normalizados. O número de conflitos armados quase duplicou
desde 2010, para cerca de 60, e os ataques a civis aumentaram quase um
terço. O mundo está realmente a tornar-se um lugar mais perigoso”,
começou por notar Volker Türk,, em Genebra (Suíça), na atualização global sobre a situação dos direitos humanos no
mundo.Apontando que “o conflito é um
deserto em termos de direitos humanos, literalmente, e para as pessoas
que o vivem”, o chefe dos direitos humanos das Nações Unidas sustentou
então que não se deve “voltar à violência como princípio organizador” e
considerou “desconcertante que os líderes políticos não estejam a tomar
medidas urgentes para reverter essas tendências”. “Em
vez disso, alguns deles estão a atacar as instituições destinadas a
manter-nos seguros: as Nações Unidas, incluindo o Tribunal Internacional
de Justiça, o Tribunal Penal Internacional; este Conselho [de Direitos
Humanos da ONU] e os seus mecanismos. Gostaria que eles dedicassem antes
o seu tempo e energia aos desafios reais, como, por exemplo, a corrida
às armas nucleares que se desenrola diante dos nossos olhos”, declarou. A
esse propósito, e lembrando que “as armas nucleares estratégicas são
concebidas para matar um grande número de pessoas”, Türk afirmou-se
“profundamente preocupado com o facto de não existirem atualmente
limites vinculativos para os dois maiores arsenais nucleares do mundo,
os da Federação Russa e dos Estados Unidos”. “Espero
que os dois países em questão implementem imediatamente um sucessor do
Novo Tratado START e exorto todos os Estados a renovarem o seu
compromisso com a não proliferação nuclear”, disse. Reportando-se
a algumas das “violações flagrantes do direito internacional” a que se
assiste atualmente em todo o mundo, o alto-comissário deu, entre outros,
os exemplos da Ucrânia, onde “civis suportaram semanas de temperaturas
abaixo de zero, sem eletricidade, aquecimento e água, enquanto a
Federação Russa destrói infraestruturas vitais, afetando cidades
inteiras”, e dos territórios palestinianos ocupados, onde “Israel
prossegue o seu projeto de anexação, violando flagrantemente o direito
internacional e o direito palestiniano à autodeterminação”. Em
relação ao Irão, afirmou-se “extremamente preocupado com a
possibilidade de uma escalada militar regional e o seu impacto sobre os
civis”, e disse esperar “que a voz da razão prevaleça”. “Os
[líderes] autoritários em todo o mundo seguem um manual familiar. Os
governos adotam leis vagas sob o pretexto da segurança nacional,
criminalizam críticas pacíficas e usam táticas pesadas para responder à
dissidência. Controlam a informação capturando alguns canais para
propaganda, enquanto fecham ou censuram outros”, observou. Volker
Türk prosseguiu apontando que “defensores dos direitos humanos, meios
de comunicação independentes e vozes dissidentes são presos, ameaçados,
sujeitos a vigilância e até mesmo mortos”, enquanto “grupos da sociedade
civil são rotulados como agentes de potências estrangeiras e têm o seu
financiamento cortado”. “Os autoritários
minam as instituições judiciais ao cooptá-las, ignorá-las ou abolir. E,
ao mesmo tempo, mulheres e grupos minoritários — migrantes, pessoas
LGBTIQ+, minorias religiosas — são transformados em bodes expiatórios e
culpados por todos os males da sociedade. Vemos esse manual a ser usado
em muitos países hoje em dia”, advertiu.