CESA preocupado com impacto da pandemia e da guerra na Região
28 de mar. de 2022, 10:43
— Paulo Faustino
Falando numa conferência sobre a
sustentabilidade dos Açores, que decorreu em Ponta Delgada por
iniciativa da Associação Seniores de São Miguel, Gualter Furtado lembrou
que a economia regional depende muito das importações de cereais e
combustíveis “e só bastaria essas duas componentes para ter um grande
impacto aqui na Região”. “De facto, os preços estão a ter - em relação
ao mês homólogo, ao final do ano e ao mês anterior - comportamentos
muito elevados”, acentuou.O economista faz notar que o impacto da
guerra está longe, por enquanto, da proporção que a pandemia atingiu,
mas tudo agora vai depender do tempo até a paz ser alcançada. “Se lá
para o final do ano, se essa guerra não acabar e se não conseguirmos uma
solução para os preços de algumas ‘commodities’, estou convencido que
vamos ter um impacto muito forte no Produto Interno Bruto”, frisou.O
presidente do CESA reiterou a insustentabilidade do atual modelo
autonómico da Região, fazendo notar que as suas receitas próprias,
somadas às transferências da República e da União Europeia, são
insuficientes para cobrir as despesas públicas. “Numa região em que as
receitas próprias dos Açores cobrem somente 49,8% das nossas despesas,
sendo a parte restante coberta por transferências do Orçamento do
Estado, fundos comunitários e endividamento crescente, é evidente que
temos aqui um problema de sustentabilidade e de linha de rumo que
importa corrigir enquanto é tempo”, enfatizou.Neste momento, as
receitas próprias da Região já nem dão para cobrir as despesas de
funcionamento, daí que o CESA se tem pronunciado sobre a necessidade de
haver uma tomada de consciência e ser definida “uma linha de rumo que
robusteça e ponha o setor privado a contribuir mais para o
desenvolvimento dos Açores”.Há uma década que a Região está numa
escalada de endividamento, decorrente da constatação que gastamos muito
mais do que a riqueza que produzimos que não chega para metade daquilo
que gastamos. Um contexto negativo especialmente agravado, nos últimos
dois anos, pela pandemia e agora com a guerra na Ucrânia, de
consequências imprevisíveis.Para Gualter Furtado, “está visto e
demonstrado” que o modelo de crescimento adotado pela Região não tem
reduzido a sua dependência externa, assim como não resolveu problemas
sociais como a pobreza, problema esse em que os Açores ocupam um lugar a
nível nacional “que nos deve envergonhar”. “Mesmo que nos anos mais
recentes estes indicadores tenham melhorado, continuamos com uma em cada
cinco pessoas nos Açores (2020) em situação de pobreza”, afirmou.Por
outro lado, lembrou que a conjugação da diminuição da população com o
seu envelhecimento “coloca uma grave restrição à sustentabilidade das
políticas de desenvolvimento no arquipélago”, havendo uma “forte pressão
sobre os recursos humanos que começam a faltar em qualidade e mesmo em
quantidade”. Por essa razão, o CESA aconselha que a demografia e os
recursos humanos passem a ser “uma das principais prioridades nos
programas e planos de investimentos nos Açores”.