CES de Coimbra investiga denuncias de assédio contra dois membros da academia

12 de abr. de 2023, 08:17 — Lusa/AO Online

Segundo o jornal, as acusações constam de um artigo num livro sobre assédio sexual na academia, em que os dois membros do Centro de Estudos Sociais de Coimbra são acusados de usarem o seu poder sobre jovens estudantes e investigadoras para "extractivismo sexual".O artigo do livro acusa também a instituição de silenciamento e cumplicidade.O livro, intitulado Sexual Misconduct in Academia - Informing an Ethics of Care in the University (Má conduta sexual na Academia - Para uma Ética de Cuidado na Universidade), foi disponibilizado ‘online’ a 31 de março.As autoras do artigo, a belga Lieselotte Viaene, a portuguesa Catarina Laranjeiro e a norte-americana Myie Nadya Tom, estiveram no CES como, respetivamente, investigadora de pós-doutoramento (com uma bolsa Marie Curie) e estudantes de doutoramento. De acordo com o DN, o último dos 12 capítulos descreve acontecimentos ocorridos numa instituição que, não sendo nomeada, “é facilmente identificada, até por ser a única em comum no percurso das três autoras, como sendo o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra”, escreve o DN.Segundo o jornal, “também não é difícil perceber que os dois homens referidos nesse capítulo como protagonizando condutas sexuais inapropriadas, crismados na narrativa como "The Star Professor" (o professor estrela) e "The Apprentice" (o aprendiz) são, respetivamente, o sociólogo Boaventura Sousa Santos, diretor emérito do CES, e o antropólogo Bruno Sena Martins, investigador do quadro da instituição”.Confrontados pelo DN, ambos assumiram reconhecer-se como retratados sob essas denominações, mas refutam as acusações."É evidente que [o artigo] se refere ao Centro de Estudos Sociais", escreve Boaventura Sousa Santos (BSS), na resposta que deu ao jornal, na qual diz ser o CES "um alvo apetecível por muitas razões”.Frisando que o texto "foi certamente escrito sob aconselhamento jurídico para, não mencionando nomes, evitar ardilosamente queixas judiciais", o sociólogo vê-se como alvo de "cancelamento"."Nas instituições académicas norte-americanas tornou-se um pesadelo. Colegas (homens e mulheres) injustamente acusados e até ilibados em processos judiciais internos (caso do Professor Comaroff) continuam a ser vilipendiados. Pelos vistos, vai-se alastrando pelo mundo", escreve.Diz ainda que o que é descrito é "uma distorção e uma falsificação da realidade” a seu respeito e a respeito do CES.“O ambiente académico de proximidade e de crescimento coletivo que criámos ao longo de décadas é arrasado de uma maneira vil e inqualificável. (...) O artigo é um típico produto de um ataque ‘ad hominem’ em que o mundo académico começa a ser fértil”, escreve ainda, acrescentando: “o objetivo é lançar lama sobre quem se distingue e luta por um mundo melhor”.Boaventura Sousa Santos lamenta ainda: "Aos 82 anos de idade julgava ter direito a um pouco de paz, mas infelizmente o mundo em que vivemos não permite que isso suceda".Certificando ainda que "quando houver conduta menos correta as instituições devem atuar" e que "o CES tem um Código de Conduta, uma Comissão de Ética e uma Provedoria", garante que os factos de alegada conduta menos ética mencionados “nunca foram apresentados aos órgãos do CES."Também Bruno Sena Martins exprime a sua indignação na resposta enviada ao jornal: "Não resta dúvida que a intenção das autoras é a de me expor, sem a coragem de dizer o nome, e que eu seria a pessoa designada por "Apprentice".“Ao contrário do que o capítulo ora publicado ardilosamente pretende insinuar, quero reiterar que em momento algum agredi física ou sexualmente [uma das autoras do artigo] ou qualquer outra pessoa.", escreve, lembrando que "em nenhum momento" foi alvo de queixa, na academia, por assédio ou comportamentos inapropriados.As três autoras do artigo estão agora noutras instituições universitárias. Viaene é professora na Universidade Carlos III, em Madrid, Laranjeiro está como investigadora no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova e Tom é professora na Universidade de Nebraska, em Omaha, EUA.Contactadas pelo DN,  recusaram fazer qualquer comentário.