Cérebro é capaz de avaliar várias estratégias em simultâneo para tomar uma decisão
13 de abr. de 2023, 18:24
— Lusa
Como
é que decidimos que fila escolher nas caixas do supermercado? Foi a
partir desta escolha, aparentemente simples, do dia-a-dia de qualquer
pessoa que um grupo de investigadores partiu para estudar os processos
envolvidos na tomada de decisões.Porque,
por muito simples que pareça, a escolha pode envolver um número alargado
de estratégias de decisão, desde contar o número de pessoas em cada
fila, o número de artigos no carrinho ou mesmo a velocidade de cada
operador.De acordo com as conclusões de um
estudo divulgado hoje, perante uma decisão com tantos fatores a
considerar, o cérebro é capaz de calcular várias estratégias
alternativas de decisão em simultâneo, em vez de se comprometer apenas
com uma.O estudo foi conduzido por três
investigadores, na Fundação Champalimaud em Lisboa, que desenharam uma
espécie de mundo virtual para ratinhos, onde tinham como tarefa procurar
água.Neste mundo virtual, qualquer zona
podia oferecer água, mas de forma inconsistente, ou seja, “de um momento
para o outro pode “secar” e deixar de dispensar água”, explica a
Fundação em comunicado, acrescendo que, dessa forma, os ratinhos tinham
que decidir quando sair de um determinado local e ir para outro.Um
pouco à semelhança das filas de supermercado, também esta escolha pode
envolver várias estratégias, cada uma combinando, neste caso, erros e
tentativas bem-sucedidas ao longo de tempo de forma particular e,
portanto, com uma “assinatura do tempo decorrido”, ou variável de
decisão, própria.Dessa forma, quando
monitorizavam a atividade de grandes grupos de neurónios individuais no
córtex pré-motor enquanto os ratinhos desempenhavam a tarefa, foi
possível aos investigadores procurar combinações dos perfis temporais de
atividade dos neurónios pré-motores, que poderiam assemelhar-se às
variáveis de decisão associadas a diferentes estratégias.A conclusão surpreendeu a equipa: “Apesar de cada ratinho se concentrar na sua própria estratégia, os seus cérebros não”.“O
cérebro pode realmente executar várias estratégias de contagem
diferentes ao mesmo tempo, o que nos remete para o conceito de
superposição na mecânica quântica”, refere Zack Mainen, um dos
investigadores principais, citado em comunicado.Como
explica outra das investigadoras, Fanny Cazettes, apesar de a atividade
no córtex pré-motor refletir a estratégia que o animal estava realmente
a usar, refletia também “variáveis de decisão alternativas úteis para a
mesma tarefa e até mesmo variáveis de decisão úteis para outras
tarefas”.As conclusões abrem agora porta a
novas formas de pensar os processos envolvidos na tomada de decisões,
explica a investigadora, adiantando que o próximo passo será investigar
como o cérebro seleciona entre diferentes variáveis de decisão e como
essas decisões são traduzidas numa ação.Alfonso
Renart, também investigador principal, sublinha que a possibilidade de
representar, em simultâneo, as estratégias usadas e não utilizadas
poderá facilitar a flexibilidade cognitiva e de aprendizagem, uma vez
que “a mudança de estratégias requer apenas que seja dada atenção à
variável de decisão pré-computada correta, em vez de construí-la do
zero”.“[As conclusões] podem ainda ter
implicações para o desenvolvimento de sistemas de ‘machine learning’ [a
utilização de dados e algoritmos para imitar a forma como os humanos
aprendem] mais flexíveis e adaptáveis, o que poderá ser particularmente
útil em situações onde há um alto grau de incerteza ou complexidade”,
acrescenta Zach Mainen.