Cerco sanitário mudou a vida dos povoacenses
Covid-19
2 de abr. de 2020, 08:56
— Lusa/AO Online
"Mudou completamente o meu dia a dia, tinha
sempre o hábito regular de sair do concelho. Agora estou em teletrabalho
e só me desloco mesmo por necessidade", afirma à agência Lusa Jaime
Câmara, residente na vila da Povoação, descrevendo que a medida deixou
as ruas do concelho "ainda mais vazias". O
funcionário da Câmara Municipal, no departamento de recursos humanos,
considera a implementação do cerco sanitário uma "boa medida para
controlar o vírus", apesar de gerar uma "certa instabilidade emocional
na população". "Havendo muitos casos
positivos, aqui cria-se uma certa instabilidade emocional, mas penso
que, mesmo com esta instabilidade, as pessoas estão a fazer o que têm de
fazer e a cumprir as regras exigidas", destaca. Desde
domingo que o concelho da Povoação está em cerco sanitário devido à
identificação de transmissão local de covid-19, tendo sido registados
nove casos positivos naquele concelho até ao momento. Apesar
de a maioria dos estabelecimentos estar encerrado, Rodrigo Moniz
continua a deslocar-se para o trabalho como habitualmente, uma vez que é
funcionário numa unidade hoteleira que se mantém aberta com um "pequeno
número de pessoas" - adotou o plano de contingência -, apesar de estar
"fechada ao público".Mesmo com a
"normalidade" do contexto profissional, Rodrigo Moniz, que costuma ir
regularmente a Ponta Delgada, diz que o cerco sanitário alterou as vidas
dos moradores."Acabou por ser uma boa
medida para tentar prevenir e para ver se os casos não aumentam
drasticamente. Mas não é fácil, condicionou a vida de todos. Uma pessoa
só pode estar em casa. Claro que ficamos com receio de sair à rua e com
medo", aponta.Uma das seis freguesias do
concelho é a de Furnas, uma das zonas turísticas mais procuradas na
ilha, conhecida pelo cozido confecionado debaixo do solo, pelas
fumarolas vulcânicas (as caldeiras) e pelas nascentes de águas termais. Nas
Furnas encontra-se o restaurante e bar Caldeiras e Vulcões, encerrado
desde 18 de março, motivo que leva o proprietário Paulo Costa a
"analisar os apoios do governo", porque 14 pessoas “estão em casa"."O
problema é que as Furnas são uma terra que vive principalmente do
turismo, o que se torna muito complicado. Mesmo no verão e pondo já o
melhor cenário, vai ser difícil. Vai ser um ano perdido. Já é bom se
sairmos vivos daqui", comenta. Paulo Costa
avança que as ruas da freguesia estão "completamente desertas" ao ponto
de o silêncio sentido na zona das caldeiras "até arrepiar" os que
conhecem o local, habitualmente repleto de gente. "As
pessoas estão apreensivas com isso tudo que tem acontecido. Mas é como
tenho dito: desde que fiquem em casa, respeitem a quarentena e
desinfetem as mãos, está tudo bem. Há de correr tudo bem", assinala. Na
freguesia da Ribeira Quente, vila piscatória, vive António Rita, que,
apesar de não "sentir grandes diferenças" ao nível do abastecimento de
bens essenciais, diz que a obrigação de permanecer isolado no concelho
afeta psicologicamente os seus residentes."Eu
estava habituado a ir para Ponta Delgada e sempre que me faltava mais
alguma coisa do que precisava eu sabia que poderia sair daqui. Agora,
sabendo que nós não podemos sair do nosso concelho, psicologicamente
afeta-nos um pouco mais", afirma.António
Rita é funcionário no porto de Ponta Delgada, mas atualmente encontra-se
em casa face ao plano de contingência adotado pela empresa. O
residente na Ribeira Quente assinala que as ruas do concelho estão
"irreconhecíveis" devido à falta de gente e que as pessoas "estão a
cumprir as normas de segurança" nos estabelecimentos comerciais. "As
pessoas estavam a levar isso a sério, mas quando é longe as pessoas
pensam que ainda não chegou cá. Agora já se nota um bocadinho mais de
apreensão e de medo, porque já está próximo e entre nós", aponta.