Cerca de mil pessoas em Lisboa exigem política de defesa da floresta
21 de out. de 2017, 18:36
— AO/Lusa
Várias pessoas empunhavam bandeiras nacionais e cartazes com
palavras de ordem como “Quem lucra com os incêndios”, “Incêndios
já basta”, “Eucaliptização/combustão” e “Exigimos
responsabilidades” e “Exigimos proteção”.
Vários manifestantes envolveram-se em cenas de pancadaria, junto
à estátua do rei D. José, quando um grupo tentou desenrolar uma
fixa onde se podia ler “Governo PS, PSD/CDS: Culpados”.
“A agressão surgiu porque quando nós abrimos a faixa, logo uma
pessoa começou a dizer ‘olha PSD/CDS não’, e juntaram mais três
e mais cinco e mais dez, e os ânimos exaltaram-se e começaram à
porrada”, contou Pedro Fortunato, um dos manifestantes, que
acrescentou que um amigo seu foi deitado ao chão a ser “pontapeado
e a levar socos”.
A pronta intervenção dos agentes da PSP pôs fim aos distúrbios
e a manifestação prosseguiu de forma calma, com alguns dos
participantes transportando retratos de algumas das vítimas dos
incêndios.
“Estamos todos tranquilos, e no resto do país a mensagem é a
mesma, queremos que as coisas mudem, que tragédias como estas não
se repitam”, disse o humorista Rui Maria Pedo, um dos promotores da
iniciativa, que acrescentou: “Provou-se que os cidadãos estão
unidos”.
“Este é um passo, a história é longa, é um despertar de
consciência e a prova de que a sociedade civil está atenta. [Esta
manifestação é]Um momento, esperemos, do início de uma rutura com
o passado, em que as pessoas não se preocupam, e que todos somos
responsáveis de alguma maneira, todos os governos, todas as
entidades”, disse Pego.
Cristina Vale, que não foi afetada, nem a família, pelos
incêndios fez questão de estar presente por “ser uma manifestação
apartidária” e por exigir “um país que nos respeite e nos
proteja”.
“Foi por isso que lutámos uma vida inteira. Prendam quem faz
mal e atuem o mais depressa possível”, disse.
Carolina Covelos, que também não foi afetada diretamente pelos
incêndios, disse por seu turno, que “todos os portugueses deviam
estar presentes, não como obrigação, mas pelo país”.
“As pessoas que morreram os animais que sofreram, as casa que
foram perdidas, os terrenos que foram destruídos”, disse Cristina
Covelos que chamou a atenção para o aumento da produção da
celulose, e com isso o aumento de plantação e eucaliptos, “que
são as árvores que mais secam e destroem as áreas à volta”, no
distrito de Castelo Branco, que lamentou a destruição de mais de
metade do pinhal de Leiria.
Em solidariedade com o pinhal de Leiria, outro manifestante,
Valentim Rodrigues, empunhava uma bandeira branca com brasão real de
Portugal.
Uma solidariedade não só com o pinhal de Leiria, mas também
“relembrar o importante que foi a política do rei D. Dinis, no
incentivo à ocupação dos campos, tendo isentado de impostos
durante 20 anos todas as pessoas que ocupassem e trabalhassem os
campos”.
A sua participação nesta ação visou “chamar a atenção para
o problema das vítimas dos incêndios, da incúria que houve na
prevenção dos incêndios, e também para a necessidade de as
pessoas voltarem aos campos, e trabalhar-se para a reflorestação e
ocupação dos campos”.
Valentim Rodrigues afirmou que será difícil mudar as
mentalidades, “pois esta é uma política que está a ser seguida
há quase 200 anos”, mas espera que se volte aso campos e à
floresta.
Hoje em todo o país decorreram várias manifestações contra os
incêndios e as políticas florestais, mas também de homenagem às
vítimas dos fogos, iniciativas organizadas nas redes sociais e por
grupos de cidadãos.
A maioria dos eventos foi convocada através das redes sociais em
pelo menos dez distritos do país: Lisboa, Porto, Aveiro, Viseu,
Castelo Branco, Coimbra, Leiria, Braga, Guarda e Bragança.
“Manifestação silenciosa: Portugal contra os incêndios” é
a designação da ação que decorreu na Praça do Comércio,
exigindo um planeamento de defesa e proteção florestal e para que
as medidas de prevenção de combate a incêndios sejam realmente
executadas.
As centenas de incêndios que deflagraram no domingo último, o
pior dia de fogos do ano segundo as autoridades, provocaram 44 mortos
e cerca de 70 feridos, mais de uma dezena dos quais graves.
Esta é a segunda situação mais grave de incêndios com mortos
em Portugal, depois de Pedrógão Grande, em junho deste ano, em que
um fogo alastrou a outros municípios e provocou, segundo a
contabilização oficial, 64 mortos e mais de 250 feridos.
Registou-se ainda a morte de uma mulher que foi atropelada quando
fugia deste fogo.