Cerca 12 mil famílias endividadas sem conta de serviços mínimos bancários
29 de out. de 2017, 22:01
— Lusa/AO Online
“É uma constatação ao longo dos tempos, mas deste ano em
particular”, afirmou à Lusa a coordenadora do Gabinete de Apoio ao
Sobre-endividado (GAS) da Deco, Natália Nunes, lembrando que quem pede
ajuda ao GAS são pessoas em dificuldades financeiras e com diminuição de
rendimentos. Regra geral, os consumidores que pedem ajuda à Deco
têm conta bancária, mas a surpresa da associação é essa conta não ser
de serviços mínimos bancários, cujas comissões a cobrar pelos bancos não
podem ultrapassar mais do que 1% do salário mínimo nacional, ou 5,57
euros, de acordo com o salário mínimo deste ano. “À partida
estamos à espera que essas famílias não estejam a gastar dinheiro com a
conta bancária, porque já são pessoas em dificuldades financeiras, a
controlar os seus gastos, e que lhes falta dinheiro até para o
essencial, como a alimentação. Mas o que constatamos é que ninguém tem
uma conta bancária de serviços mínimos”, contou Natália Nunes, em
vésperas do Dia Mundial da Poupança, que se assinala na terça-feira.
A falta de informação é, para a Deco, a principal razão para a maioria
dos consumidores abdicar do direito de adquirir a um custo reduzido, ou
mesmo de forma gratuita como praticam alguns bancos, um conjunto de
serviços bancários considerados essenciais, nomeadamente a abertura de
uma conta de depósito à ordem e a disponibilização do respetivo cartão
de débito. “Há ainda muitas pessoas que continuam a acreditar
que as contas bancárias não têm despesas associadas, e que até recebem
uns ‘pozinhos’ de juro no final do ano”, como acontecia há uns anos,
afirmou a coordenadora do GAS, adiantando que existe também falta de
cuidado na observação do extrato bancário e até falta de competência
para o conseguir fazer. “Muitas vezes recomendamos que recorram
aos serviços mínimos bancários, mas quando vão ao balcão [do banco] têm
uma série de entraves, muito burocráticos, e têm de preencher
requerimentos para converterem as suas contas”, explicou. Por
essa razão, a associação construiu um folheto para começar a divulgar a
partir desta semana em ‘workshops’ em vários pontos do país, para dotar
os consumidores mais vulneráveis de informação sobre os vários tipos de
contas bancárias e ensiná-los a ler um extrato bancário. “Ao
contrário das tarifas sociais do gás e eletricidade, que são atribuídas
automaticamente, estas contas não são automáticas”, criticou, lembrando o
caso de um reformado que recorreu à Deco, com uma pensão de 300 euros e
tinha uma conta normal da qual eram retirados dois ou três euros
mensais de comissões. “Para quem recebe 300 euros por mês, esses
poucos euros fazem toda a diferença”, defendeu Natália Nunes, lembrando
que a partir 01 de janeiro de 2018 os custos destas contas de serviços
mínimos ainda vão diminuir mais porque vão passar a estar indexadas ao
IAS (Indexante de Apoios Sociais). Os serviços mínimos bancários
incluem serviços de abertura e manutenção de conta de depósito à ordem,
cartão de débito, acesso à movimentação da conta nas caixas automáticos,
serviço de homebanking e balcões da instituição de crédito, e
realização de depósitos, levantamentos, pagamentos de bens e serviços,
débitos diretos e transferências para contas no próprio banco. A
partir de 2018, além das transferências intrabancárias nacionais, as
contas de serviços mínimos vão passar a permitir transferências para
outros bancos.