Centralização vai diminuir desigualdade para metade
Hoje 10:40
— Nuno Filipe Ortega/Lusa/AO Online
“Eu
diria que passar de um modelo fixo para um modelo variável vai dar a
todos a possibilidade de melhorar a sua situação. [...] Quando
comparamos o nível de desigualdade que existe hoje em dia, essa
desigualdade, no fundo, passa para menos de metade do que ela é hoje em
dia”, assumiu André Mosqueira do Amaral, em entrevista à agência Lusa.O
responsável pelo processo de centralização na LPFP considera que “algo
que distinguia o futebol português das demais ligas era ter uma
discrepância entre quem mais aufere e quem menos aufere, que era
completamente fora do contexto europeu”.“Com
esta chave fazemos uma aproximação e a liga fica mais equitativa,
portanto, há mais igualdade. Mas, sobretudo, é a igualdade da
oportunidade, eu creio que isso é que é o ponto essencial, que é muito
claro quais são as regras, é muito claro como é que eu consigo atingir
um nível mais elevado”, explicou.A chave
de distribuição dos direitos audiovisuais, que vai entrar em vigor em
2028/29, foi aprovada pelas sociedades desportivas da LPFP e já recebeu
‘luz verde’ da Autoridade da Concorrência (AdC), com André Mosqueira do
Amaral a lembrar que, atualmente, existe “um regime obviamente
fragmentado” e “um regime também de rendas fixas, em que a cada emblema
corresponde a um determinado valor fixo, que pouco foi mudando durante o
tempo” “Foi passar para a realidade
aquilo que vemos noutras ligas, que é que todas as sociedades
desportivas, todos os emblemas têm a possibilidade de chegar a um valor
muito maior. E isso é em função do seu desempenho. O que é desempenho? É
obviamente, a sua classificação, são os pontos. A questão dos pontos é
importante, porque nós queremos premiar sociedades desportivas que
também façam mais pontos, portanto, isso traz-nos, no fundo,
competitividade ao produto, isso depois é uma forma de medir essa
competitividade, de medir esse nível de luta, que é aquilo que torna o
futebol interessante e cativante, mas também o desempenho a nível do que
cada um contribui para o produto no seu todo”, referiu. O
responsável preferiu não falar em valores, mas garantiu ter uma
“valorização interna”, que estão “quase diariamente a ajustá-la”, o que
permite saber “quais são as alavancas a trabalhar para maximizar”. “Há,
claramente, o entendimento que aquilo que é o valor atual não reflete o
potencial valor do coletivo e, aliás, vê-se isso também nas próprias
negociações individuais que vão sempre havendo. O próprio Sport Lisboa e
Benfica renegociou os últimos dois anos até 2028 e, obviamente, como
foi bem anunciado e publicitado e nós próprios até comentámos e
parabenizámos o Benfica nesse sentido, [o valor] vai subindo”, referiu. André
Mosqueira do Amaral disse acreditar que “há claramente um potencial de
valorização”, que está a ser estudado pela LPFP, assim como as “mil
maneiras de cortar o ‘bolo’” das receitas, “sempre no sentido de criar
segmentos que no final dão o maior valor possível”. Em
termos de exemplo, o diretor executivo da LPFP revelou que está a ser
pensado “um canal para a diáspora”, com narração e grafismos em
português, mesmo em países que possa haver uma transmissão
internacional. “Essa segmentação - criar
um produto específico para uma audiência específica – é um exemplo de um
lote. [...] Não é só os 90 minutos, não é só aquele jogo, é tudo o que
está à volta, e isso foi algo que nós, nesta direção que temos estado
muito, apostámos muito, foi em criar aquilo que é fora dos 90 minutos.
[...] Isso, para nós, hoje em dia, traz um valor, realmente, que é muito
interessante”, disse, salientando o trabalho feito na Liga TV e nas
redes sociais, algo que também vai fazer parte dos direitos”, admitiu.De
acordo com o responsável, “o desenho dos lotes será anunciado na altura
do concurso, exatamente com o objetivo de maximizar o valor do ‘bolo’
total”, acreditando que, na época 2028/29, tudo vai estar pronto para a
entrada em vigor do novo modelo, mas que há alternativas.“O
plano A é, com certeza, conseguir continuar a fazer o processo de
mercado, que, aliás, é um processo que acontece. Espanha fez agora há
pouco tempo, Bélgica tinha feito um pouco antes, há um mercado ‘ongoing’
e, portanto, partimos do pressuposto que esse mercado está lá e
continua e temos todas as indicações que isso aconteça”, assumiu. Contudo,
“há outras coisas que podem acontecer” e que estão identificadas, como,
por exemplo, a aposta na Liga TV, que pode “funcionar como plano B, ou,
inclusive, até é quase uma parte também do plano A”, para a LPFP poder
“produzir, distribuir e transmitir os jogos”, como já fizeram em
particulares ou nos jogos dos play-offs. “Estamos
a trabalhar nas diferentes possibilidades e isso é o nosso trabalho e a
nossa responsabilidade, também para com os nossos associados [...],
identificar esses potenciais caminhos e esgotarmos o alfabeto, plano A,
B, C e ir até fora dele”, afirmou.Questionado
sobre a possibilidade de investidores externos fazerem parte da
centralização, André Mosqueira do Amaral reconheceu que “é possível, é
verdade”, revelando ter havido um encontro com “35 investidores
institucionais, que são os maiores investidores institucionais do mundo
em desporto”, como que “uma parede de dinheiro acessível ao futebol
profissional português”.“Compete-nos a nós
desenhar um processo que, no fundo, crie as melhores condições para ver
como é que esse investimento pode ou deve ser feito e, obviamente,
depois apresentá-lo às sociedades desportivas e tomarmos uma decisão
colegial, como fizemos com o regulamento, como fizemos com a chave, de
como é que isso pode funcionar”, afirmou. André
Mosqueira do Amaral lembra que “há momentos em que há uma oportunidade,
há capital”, que tem de ser aproveitado, e “tem inúmeras vantagens,
desde logo a nível das infraestruturas”, que é uma área onde há “muitas
carências”, assim como “na própria exploração comercial”.“As
sociedades desportivas portuguesas têm um nível de excelência
desportiva que é, de facto, espetacular. [...] Mas não corresponde uma
excelência económica e comercial e é essa diferença que nós acreditamos
que conseguíamos trazer alguma convergência, trazer uma correspondência
de valor económico àquilo que é a nossa excelência desportiva. Aí o
capital pode ter uma contribuição muito importante”, rematou.A
comercialização centralizada dos direitos audiovisuais dos jogos da I e
II Ligas foi decretada pelo Governo em 2021, na sequência da assinatura
de um memorando de entendimento entre Federação Portuguesa de Futebol e
LPFP, com aplicação a partir de 2028/29.Esse
modelo inviabilizará os clubes de comercializarem individualmente os
direitos de transmissão das suas partidas, tal como fez o Benfica em
janeiro, ao cedê-los de novo à operadora NOS, a par da distribuição da
estação BTV, num acordo de 104,6 ME para 2026/27 e 2027/28.