Centenas de trabalhadores pedem diálogo e transparência frente à AR
TAP
2 de dez. de 2020, 16:14
— Lusa/AO Online
A iniciativa foi promovida pelo
movimento "os números da TAP têm rosto", sem qualquer ligação aos
sindicatos que representam os trabalhadores da companhia aérea, na
sequência de notícias sobre despedimentos e cortes salariais que têm
sido anunciados."Queremos transparência" é
uma das frases de ordem dos trabalhadores reunidos em frente ao
parlamento, que junta pilotos, tripulantes de cabine e trabalhadores de
terra, que não estão hoje de serviço."Nós
estamos aqui não só pelas pessoas que não renovaram o contrato, mas
pelos números que se avizinham ser catastróficos e pelos postos de
trabalho e pelas empresas nacionais que têm de alguma maneira uma
ligação direta à TAP", disse à Lusa Elsa Fragata, trabalhadora da TAP e
organizadora do movimento espontâneo que se concentrou em São Bento.Para
a tripulante de cabine, "não é só um problema da TAP, mas é um problema
nacional. Da TAP, diretamente, dependem 10.000 postos de trabalho e é
muito importante que as pessoas tenham noção disso, por curiosidade
ninguém faz ideia quantos litros de sumo Compal, isto para dar um
exemplo, nós consumimos a bordo dos nosso aviões anualmente",
acrescentou.Os trabalhadores reclamam que
têm de ser ouvidos pela administração da companhia aérea e pelo Governo,
no que diz respeito ao plano de reestruturação da companhia, e que
querem "fazer parte da solução"."Nós neste
momento estamos numa situação de corte cego", lamentou Elsa Fragata,
referindo-se aos números avançados de despedimentos que irão acontecer,
que, a concretizarem-se, serão superiores a 3.000 postos de trabalho.Para
Maria Peres, supervisora de cabine e trabalhadora da TAP há 34 anos, a
necessidade de uma reestruturação da empresa não está em causa, mas
defendeu, em declarações à Lusa, "uma reestruturação sustentada e em que
os trabalhadores tenham uma palavra a dizer"."O
Governo não ouviu sequer os sindicatos, que tinham propostas a
apresentar. Nós somos confrontados com números na ordem dos 3.000
despedimentos, ou seja não só os contratados a prazo que já foram, mas
ainda mais 750 [tripulantes] efetivos e 500 pilotos, ora isto surgiu sem
qualquer enquadramento, não há qualquer referência a quem é que vai ser
despedido, se são os mais novos, se vai haver lugar a pré-reformas,
reformas antecipadas, estamos completamente no escuro", acrescentou.Os
trabalhadores argumentam, ainda, que as previsões de uma retoma para o
setor da aviação apontadas pela empresa não estão atualizadas com os
mais recentes números do Eurocontrol, uma vez que a empresa aponta a
retoma para 2025 e a Organização Europeia para a Segurança da Navegação
Aérea anunciou recentemente que espera uma retoma em 2023."Ontem
[terça-feira], eu estava em casa e tive conhecimento que as escalas da
TAP estavam a contactar colegas de folga, porque não tinham já
suficientes para fazer os voos. Ora, ainda só foram embora alguns
contratados a prazo, imagine-se o que será quando forem todos", apontou
Maria Peres.O tripulante de cabine António
Avelar reiterou que o que os trabalhadores querem é "transparência e
diálogo" e lamentou que estejam a ser "mantidos em silêncio desde
março". "Não há esclarecimentos nenhuns da
parte da empresa, da parte do Governo, nós não sabemos o que vai
acontecer às nossas vidas", disse, lamentando, ainda, os "cortes
absurdos que penalizam, sem dúvida, a operação e a viabilidade futura da
companhia".Recentemente, a companhia
Delta Air Lines foi forçada a cancelar cerca de 500 voos, devido ao
aumento da procura no Dia de Ação de Graças, nos Estados Unidos, e à
redução de pessoal devido à pandemia de covid-19, noticiaram vários
órgãos de comunicação norte-americanos.Este
exemplo foi referido pela organização do protesto de hoje, que receia
que a redução de trabalhadores na TAP leve a que não se consiga fazer
face à procura, quando se der a retoma do setor e a procura voltar aos
níveis de 2019.O plano de reestruturação
da TAP tem que ser apresentado à Comissão Europeia até 10 de dezembro,
sendo uma exigência da Comissão Europeia pela concessão de um empréstimo
do Estado de até 1.200 milhões de euros, para fazer face às
dificuldades da companhia, decorrentes do impacto da pandemia de
covid-19 no setor da aviação.