Centenas de carros da Uber em protesto buzinam em frente à empresa
6 de jan. de 2020, 16:18
— Lusa/AO Online
Buzinarem e mostrarem os seus dísticos de TVDE (transporte individual e
remunerado de passageiros em veículos descaracterizados a partir de
plataforma eletrónica) foi a forma que os motoristas que aderiram a este
protesto contra a redução das tarifas encontraram para “serem ouvidos”
pelos responsáveis em Portugal. O protesto
dos motoristas da Uber começou hoje uma concentração, por volta das
10:00, no jardim fronteiro ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, de onde
saíram hora e meia depois para iniciarem uma marcha de protesto.
A partida atrasou porque não houve autorização para fazerem a
manifestação por parte da polícia, que inicialmente, iria fazer escolta
aos carros.Em Belém, os ânimos ficaram
divididos quando um dos motoristas subiu ao banco de pedra e alertou os
colegas que a polícia, ao contrário do inicialmente previsto, já não os
iria escoltar e que poderiam ser identificados caso continuassem com o
protesto. Uns diziam para se “avançar sem
medos” de forma a marcaram uma posição, enquanto outros apelavam ao bom
senso e pediam para que as coisas corressem com “normalidade e
respeito”. “Fazemos uma marcha lenta
silenciosa”, “vamos ficar online, respondemos a pedidos, mas não os
fazemos” ou “os clientes não têm culpa e não podem ser prejudicados”,
foram algumas das frases proferidas entre os motoristas.
Apesar de não ‘comandar’ o protesto, a polícia esteve presente em todo o
trajeto: Avenida 24 de Julho, Avenida D. Carlos I, não permitindo a
passagem à frente da Assembleia da República, mas orientando o trânsito
para a Calçada da Estrela e voltando a não deixar os carros passarem
para a rua da Imprensa à Estrela, onde se situa a residência oficial do
primeiro-ministro. Este protesto foi
organizado através das redes sociais, nomeadamente no WhatsApp, depois
de os motoristas terem recebido, no final da semana passada, uma
mensagem por parte da plataforma eletrónica que dizia: “Novos preços,
maior rentabilidade”. “Aquilo que parecia
ser uma boa notícia veio, no entanto, a confirmar-se que não era nada de
bom”, disse a motorista Maria Gomes hoje de manhã à Lusa.
“Em três anos e meio as coisas mudaram bastante. Ao início dava, mas o
modelo de negócio criado não dá para individuais”, acrescentou.
Essa decisão da empresa deu também origem a uma petição online, lançada
na sexta-feira em
https://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT95559, e que até às
15:00 de hoje tinha sido assinada por 1.944 pessoas.
Os signatários pedem a intervenção do Presidente da República, do
Governo, dos deputados e dos partidos com assento parlamentar contra os
“constantes atropelos” à lei para o setor da atividade de TVDE
(transporte individual e remunerado de passageiros em veículos
descaracterizados a partir de plataforma eletrónica).
Entre os atropelos, criticam os preços das tarifas praticadas,
estabelecidos pelas plataformas eletrónicas, que “alteram os valores
(sempre baixando os preços) sem preocupação com a remuneração de cada
parceiro/motorista”, tornando “insuportável os valores inerentes” à
atividade. Para o motorista Marcos Pais, a
solução dos problemas passaria por uma alteração na lei e “fixar um
valor certo por viagem”, de forma a “não haver a possibilidade de as
empresas fazerem ‘dumpping’”. “Trata-se de uma guerra que não tem fim, é uma exploração completa”, reconheceu Marcos Pais.
Entre as várias questões apresentadas, a maioria dos motoristas
queixa-se do valor dos seguros automóveis, que rondam os 2.000 a 2.500
euros anuais, excluindo algumas cláusulas, nomeadamente a do veículo de
substituição. “Atualmente os custos e
ganhos não equilibram. A plataforma dá-me segurança no meu trabalho”,
contou Maria Gomes, reconhecendo que atualmente se sente a trabalhar “à
força”. “Resmungamos muito, connosco e
depois com os clientes, e ficamos iguais aos outros”, admitiu, lembrando
que não é isso que deseja que continue a acontecer e reconhecendo que
tem colegas que não podem “sequer pensar em desistir devido ao
investimento que fizeram”. Num ‘flyer’
onde se apelava ao protesto divulgado na internet, com a ‘hashtag’
‘#uberoff’, os motoristas e parceiros da Uber dizem estar “cheios de
cortes e de tarifas cada vez menores, enquanto as despesas aumentam cada
dia”. Contactada na sexta-feira pela
Lusa, fonte oficial da UBER afirmou que “os motoristas podem escolher
livremente estar ligados à aplicação, sendo que a Uber não impõe
qualquer limitação nesse aspeto”, competindo-lhe “oferecer o melhor
valor possível tanto a motoristas como utilizadores”, para poder
“continuar a contar com a preferência de ambos”.
Hoje, novamente contactada pela Lusa sobre o protesto que envolve os
seus motoristas, a Uber remeteu um comentário para mais tarde.