CCIPD acusa Governo de fazer leitura parcial do turismo
Hoje 10:39
— Ana Carvalho Melo
A Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) acusou o
Governo Regional de apresentar uma leitura “parcial e distorcida” da
evolução do turismo nos Açores, na sequência de uma nota na qual é
destacado o aumento de 15% nas receitas turísticas em maio de 2026.“Os
empresários açorianos conhecem bem a situação do turismo e não podem
continuar a ser confrontados com análises parciais que ignoram
deliberadamente uma parte significativa da informação disponível. O
Governo não deve tratar os empresários como se não fossem capazes de
interpretar os dados estatísticos, até porque estes fazem contabilidade
diária”, afirmam os empresários, em comunicado.Para a CCIPD, a nota
divulgada pelo Governo Regional “assenta exclusivamente no aumento dos
proveitos da hotelaria tradicional, omitindo que o Serviço Regional de
Estatística dos Açores (SREA) não divulga os proveitos do alojamento
local”, considerando que “esta omissão impede qualquer conclusão séria e
honesta sobre a evolução das receitas do conjunto do setor turístico,
que é negativa”.Os empresários realçam a realidade do alojamento
local, referindo que atualmente possui um número de camas superior ao da
hotelaria nos Açores, mas registou em maio uma quebra superior a 8% nas
dormidas, acompanhada por uma diminuição do número de hóspedes e da
taxa de ocupação.“Ignorar este segmento e apresentar apenas os
indicadores favoráveis da hotelaria constitui uma leitura incompleta e
distorcida da realidade, que só pode ser propositada”, consideram.Quanto
à hotelaria, realçam que “mesmo admitindo o crescimento dos proveitos
apenas da hotelaria tradicional, importa recordar que as empresas
enfrentaram, nos últimos anos, aumentos muito expressivos dos custos
salariais, resultantes da valorização das remunerações e da escassez de
trabalhadores, bem como aumentos significativos dos custos de energia,
transportes, bens alimentares, serviços e restantes fatores de produção,
que são muito superiores ao aumento das receitas de uma parte do setor.
O aumento parcial das receitas, por si só, não demonstra uma melhoria
da situação económica das empresas, nem compensa de modo nenhum o forte
agravamento dos custos de exploração”.A CCIPD apresenta números que
considera contrariar o tom otimista da nota do executivo regional.
“Entre janeiro e maio de 2026, a Região perdeu cerca de 22 000 hóspedes
face ao período homólogo. Esta redução representa um impacto económico
direto estimado em cerca de 24 milhões de euros e um impacto económico
total de aproximadamente 32,5 milhões de euros na economia regional”,
revela.E considera que “menos turistas significam menos consumo no
alojamento, na restauração, no comércio, na animação turística, nos
transportes, naagricultura, nas pescas e em dezenas de outras
atividades económicas, traduzindo-se numa perda efetiva de riqueza para
os Açores que não pode ser desvalorizada nem apresentada como um sinal
de sucesso”, afirmando que “ignorar esta realidade e procurar apresentar
como positiva uma diminuição da procura turística constitui um
exercício de comunicação política de mau gosto que em nada ajuda as
empresas”.