Casa do Romeiro e candidatura à UNESCO marcam prioridades da nova coordenação

Hoje 16:06 — Filipe Torres

O Movimento de Romeiros de São Miguel (MRSM) tem agora um novo Grupo Coordenador que pretende ser próximo, transparente e ao serviço dos ranchos e dos romeiros.Em entrevista ao Açoriano Oriental, o novo Grupo Coordenador, composto por Nuno Furtado (presidente), Paulo Bulhões (vice-presidente), João Brandão (secretário), David Feijó (tesoureiro), Luís Teixeira (vogal) e pelo diretor espiritual, o padre Eurico Caetano, definiu os principais objetivos para o mandato, iniciado em abril do presente ano.“As prioridades deste primeiro mandato passam, em primeiro lugar, pela dinamização da Casa do Romeiro. Trata-se de um espaço emblemático para o Movimento dos Romeiros de São Miguel, cedido pela Câmara Municipal da Lagoa, que pretendemos que seja a verdadeira casa de todos os romeiros: um local de encontro, de partilha, de formação e de valorização do património material e imaterial das Romarias Quaresmais”, afirma.Na ótica do Grupo Coordenador do MRSM, a Casa do Romeiro será um grande alicerce para a Romaria e para os romeiros, desde a divulgação da história das Romarias Quaresmais, com exposições artísticas e iniciativas culturais relacionadas com esta tradição, até  mesmo a nível de estudo, com uma sala de investigação para promover o estudo em torno das Romarias Quaresmais, com base nos livros e artigos publicados.Este espaço, que só abre mediante de inscrição prévia, será igualmente um espaço de acolhimento para os romeiros.“Pretendemos que seja a verdadeira casa de todos os romeiros, onde possam realizar-se as reuniões do Grupo Coordenador, acolher os ranchos ao longo do ano e promover momentos de encontro, partilha e fraternidade”, reforça o Grupo Coordenador do MRSM.A abertura no passado dia 26 de julho foi um sucesso. “Demonstrou bem o potencial deste espaço, com a apresentação de um livro e uma exposição artística que trouxeram muitas pessoas à Casa do Romeiro. É esse espírito de abertura e de dinamismo que queremos manter”, afirma a coordenação dos romeiros de São Miguel.Projeto  “As Palavras do Romeiro” em prol da candidatura à UNESCOOutra das prioridades do Grupo Coordenador é a candidatura das Romarias a Património Cultural da Humanidade pela UNESCO.O MRSM realça que este processo tem sido feito por etapas. A primeira ficou  concluída em 2025, quando as Romarias Quaresmais passaram a integrar o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, um reconhecimento “muito importante para a preservação desta tradição”.A segunda fase está a decorrer, com a preparação da candidatura a Património Cultural da Humanidade pela UNESCO.“Trata-se de um trabalho exigente, que envolve a recolha, organização e valorização de todo o património histórico, cultural e humano ligado às Romarias Quaresmais”, salienta.Por isso, o MRSM tem realizado várias iniciativas, entre elas o projeto “As Palavras dos Romeiros”, na qual há entrevistas a antigos mestres, irmãos mestres no ativo e a muitas outras pessoas que, ao longo dos anos, têm contribuído para a continuidade das Romarias Quaresmais.“Acreditamos que uma eventual classificação pela UNESCO representará um importante reconhecimento internacional das Romarias Quaresmais mas, acima de tudo, constituirá uma responsabilidade acrescida na preservação da sua autenticidade e dos seus valores”, sustenta. Um projeto que já vai no segundo episódio, ambos publicados no Açoriano Oriental.Dia do Romeiro vai regressarEntre as iniciativas que a nova direção pretende recuperar está o Dia do Romeiro, cuja última edição se realizou em 2019, antes da interrupção causada pela pandemia.Apesar de salientar que o regresso não será realizado este ano, o Movimento salienta que a previsão é de regressar no próximo ano.  No entanto, o MRSM salienta que há outro ponto importante: a revisão dos Estatutos do Movimento dos Romeiros de São Miguel. Durante essa avaliação, a direção vai propor uma alteração da data em que a celebração será realizada, uma proposta que será apresentada e debatida na próxima assembleia geral.A coordenação  pretende que o dia volte nos termos que sempre o caracterizaram, salientando que esta é “uma oportunidade privilegiada para reforçar a união entre todos os ranchos da ilha”.“Hoje é evidente que os romeiros já não vivem apenas a semana da Romaria Quaresmal. Somos romeiros durante todo o ano. Os ranchos têm uma participação muito ativa na vida das paróquias, nas procissões, em iniciativas de solidariedade, campanhas de dádiva de sangue, atividades para crianças e inúmeras ações sociais”, realça o Movimento, acrescentando que  os ranchos distribuem semanalmente refeições a sem-abrigo.E os maiores desafios?Relativamente aos principais desafios da atualidade nas Romarias Quaresmais, o MRSM realça que o maior desafio é preservar a autenticidade das Romarias Quaresmais, de modo a garantir que as novas gerações tenham a sua essência, espiritualidade e valores.“Vivemos numa época em que as redes sociais e as novas tecnologias fazem parte do dia a dia de todos. No entanto, durante a romaria é importante que os irmãos vivam plenamente esta experiência de fé, privilegiando a oração, o silêncio, a fraternidade e o desapego, evitando que o uso constante dessas ferramentas desvirtue o verdadeiro sentido da peregrinação”, salientam.Ora, outro grande desafio é a pernoita dos romeiros. O Movimento salienta que, tradicionalmente, os romeiros eram acolhidos nas casas das famílias  das freguesias por onde pernoitavam. No entanto, ao longo dos últimos anos, o Grupo Coordenador salienta que tem havido “aumento das dormidas em salões”. Por isso, o Movimento incentiva, “sempre que for possível”, o regresso dos romeiros às casas dos benfeitores, com o intuito de “preservar uma das marcas mais bonitas e genuínas das nossas Romarias Quaresmais”.Garantir a proximidadeOs desafios fazem sempre parte do percurso dos romeiros, por isso, o Movimento pretende  ainda garantir que a comunicação seja cada vez “mais próxima, regular e transparente”. A direção procura fazer chegar toda a informação através dos irmãos mestres e contramestres, com o correio eletrónico e outros meios de comunicação.O Grupo Coordenador decidiu também atualizar o site e a página de Facebook, para tornar estes meios mais úteis, dinâmicos e próximos dos romeiros e da comunidade. Além disso, criou uma newsletter mensal, enviada por e-mail e divulgada nas redes sociais, onde partilha as principais atividades, projetos e notícias do Movimento.“(...) Mas a proximidade faz-se também pela presença. Pretendemos continuar a visitar os ranchos, ouvir as suas preocupações, conhecer a realidade de cada um e trabalhar em conjunto, porque o Grupo Coordenador existe para servir os ranchos de romeiros e não o contrário”, acrescenta.O MRSM pretende ainda reforçar a formação dos romeiros, com ações de sensibilização sobre saúde, segurança rodoviária e outras matérias essenciais ao bom funcionamento das Romarias.Retiro para jovens na LagoaO projeto “As Palavras do Romeiro”, como foi já referido, também pretende guardar os testemunhos para os passar às novas gerações.Hoje, também é  fundamental a participação dos jovens, porque “os jovens de hoje serão os romeiros de amanhã”. Por isso, o Grupo Coordenador, juntamente com o diretor espiritual, o padre Eurico Caetano,  está a preparar um retiro para os jovens que deverá ser realizado no início do próximo ano, no concelho da Lagoa. “Será um retiro destinado tanto aos jovens que já participam nas Romarias Quaresmais como aqueles que desejam fazer a sua primeira romaria. Pretendemos proporcionar um dia de oração, reflexão, convívio e partilha, despertando nos mais novos o desejo de integrar esta caminhada de fé”, explica o Grupo Coordenador.Há cada vez mais ranchos fora de São MiguelO Grupo Coordenador salienta que é um “sentimento de orgulho” ver as Romarias Quaresmais, que nasceram em São Miguel, crescerem para outras ilhas dos Açores e para a diáspora açoriana.“O mais importante é garantir que, independentemente do local onde se realizem, as Romarias preservem a sua autenticidade, espiritualidade e identidade. O Grupo Coordenador continuará disponível para apoiar todos esses ranchos, partilhando a experiência acumulada e colaborando em tudo aquilo que possa contribuir para o fortalecimento desta tradição”, salienta.O Grupo Coordenador concluiu ao Açoriano Oriental que pretende deixar um Movimento mais unido, mais próximo dos ranchos e preparado para enfrentar os desafios futuros, preservando a identidade das Romarias Quaresmais.