Carros que contam o legado da açorianidade

12 de mai. de 2025, 10:16 — Maurício de Jesus

Antigamente era uma obrigação e uma necessidade. Hoje em dia é um divertimento e uma forma de celebrar a açorianidade, transmitindo a identidade topense aos mais jovens, que reconhecem o seu valor e gostam de participar nos cortejos de carros de bois, onde se destaca a forte presença do gado da raça Ramo Grande.O secretário regional da Agricultura e Alimentação, António Ventura, identificou, no ano passado, nas Velas, a evolução verificada nos últimos 10 anos no número de bovinos da raça Ramo Grande na ilha de São Jorge, referindo que dos 2 443 animais da espécie existentes nos Açores, a ilha de São Jorge possui quase metade do efetivo.O primeiro dia de maio, de há três anos a esta parte, trouxe ao lugar do Barreiro, situado na freguesia do Topo, na ilha de São Jorge, o primeiro cortejo de carros de bois e a primeira tourada à corda deste corrente ano de 2025.Esta iniciativa começou há três anos, quando o topense Ângelo Silva (Júnior), com um grupo de apoiantes e amigos, teve a ideia de, anualmente, a 1 de maio, realizar um tradicional cortejo de carros de bois e uma tourada à corda, uma iniciativa que marca o início dos cortejos e das touradas à corda em São Jorge.Estes cortejos contam, normalmente, com várias dezenas de participantes que, com a sua aguilhada, a sua junta de bois (normalmente da raça Ramo Grande), e o seu carro de madeira tradicional - onde se ouve 'cantar' as rodas - desfilam por vezes com ferramentas de trabalho agrícola, como o arado, a claveira, a grade, as atarradeiras, o alvião, as cangas, cestos de vime, entre outros acessórios do quotidiano rural.Alguns destes participantes enfeitam também os carros de bois com flores e faias alusivas a esta época. Estes veículos, que outrora foram os “tratores” do tempo, são hoje utilizados anualmente nestes cortejos, nos bodos de leite e na época do Espírito Santo, bem como no cultivo de terras de difícil acesso a tratores, como acontece nas conhecidas fajãs da ilha.“Hoje em dia só usamos isto para desporto, antigamente era uma necessidade”, dizem alguns dos participantes, que carregam o legado e o suor dos seus pais e avós e que, com orgulho, vão passando de geração em geração um dos métodos mais nobres e tradicionais de trabalhar o campo.Ocasionalmente, são feitas escrepagens - em que, de forma voluntária e a convite dos organizadores - as terras são trabalhadas à moda antiga. A escrepagem serve para puxar e transportar a terra de um pasto inclinado, onde a chuva e o tempo a arrastaram para zonas mais baixas. Nesta ocasião, os carros de bois puxam a terra de volta para a parte superior do terreno.Anualmente, na Ponta do Topo (freguesias de Topo e Santo Antão), realizam-se cortejos no Barreiro, nos bodos de leite do Topo e de Santo Antão, no Bodo de Leite de São Tomé e no Bodo de Leite do Cruzal, inserido nas festas de São Tomé e do Senhor Bom Jesus. Para além destes, que estão anualmente agendados e programados, há também alguns cortejos organizados pelos mordomos dos Jantares em Louvor ao Divino Espírito Santo.A raça Ramo Grande é muito apreciada pela sua cor e trato dócil. No lugar do Barreiro, João Eduíno, um emigrante que regressou à sua terra natal após várias décadas fora da ilha de São Jorge, referiu: “O ano passado vim com estas bezerras, este ano já são maiores. Comprei-as pequenas, só por causa de ir aos cortejos... Quero ir a todos os cortejos, se Deus quiser".Alguns dos participantes anseiam pela hora do cortejo. “Eu acordei eram 6 horas da manhã... estava inquieto para caminhar”, disse João Eduíno, com um sorriso no rosto e com o seu chapéu bege à cowboy, ao lado da sua junta de bois, com a aguilhada erguida na mão.Horácio Mendonça, um dos cerca de 40 participantes neste cortejo e residente na freguesia de Santo Antão, referiu que ia participar pela primeira vez com a sua junta de bois. Admitiu ainda que agora é uma questão de ir praticando e trabalhando com o gado, para que este se vá habituando à presença das pessoas, dos carros e aos trabalhos de campo, dia após dia.O promotor da iniciativa, Ângelo Silva, fez um balanço positivo no final do dia. Apesar do tempo não ter ajudado, afirmou que "se houver saúde em 2026", pretende voltar a realizar o cortejo e a tourada à corda, um acontecimento que enaltece e valoriza a autenticidade da açorianidade.