Carnaval da ilha Terceira passado com tristeza e de olhos postos em 2022
Covid-19
12 de fev. de 2021, 18:19
— Carina Barcelos/Lusa/AO Online
“Este ano
será um ano de memórias, será um ano para recordar. E, acima de tudo,
perceber que, embora nós não tenhamos o ‘bichinho’ a trabalhar aqui
dentro para que realmente haja Carnaval, há a esperança de que no ano de
2022 voltemos aos palcos com a mesma alegria”, afirma, em declarações à
Lusa, César Toste, participante habitual nas tradicionais danças de
Carnaval da ilha.Por esta altura, já o
nervoso pré-estreia teria tomado conta das centenas de músicos e atores
amadores que todos os anos correm mais da 30 salas de espetáculo pela
ilha, atuando até de madrugada, de forma gratuita, para milhares de
pessoas, entre o sábado e a terça-feira de Entrudo.As
danças e os bailinhos de Carnaval da Terceira, que integraram em 2020 o
Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial de Portugal, são
manifestações de teatro popular, intercaladas com música e coreografias,
com textos, em rima, de comédia ou drama, na maioria dos casos com uma
componente de crítica social.Este ano,
devido à pandemia de covid-19, o Governo Regional dos Açores determinou a
proibição de festividades e a limitação da circulação na via pública
nos dias de Carnaval, mas a suspensão das danças e bailinhos aconteceu
de forma natural.Os ensaios não arrancaram
em dezembro, como habitualmente, as ideias para os enredos não chegaram
ao papel, os ateliês de costura não se encheram de brilhos e
lantejoulas, e as direções das sociedades nem pensaram em abrir portas.“Os
terceirenses assumiram por si que não ia haver Carnaval”, salienta
César Toste, acrescentando que “a saúde está em primeiro lugar”.Em
cima dos palcos estão todos os anos mais de 1.500 pessoas, mas são
muitas mais nas plateias dos 36 salões da ilha, quase sempre cheias até à
porta, sem qualquer hipótese de distanciamento social.Enfermeiro
e autarca da vila das Lajes, onde está localizado o único museu sobre o
Carnaval da ilha, César Toste diz que a população entendeu que não
havia condições para realizar danças e bailinhos, este ano, mas admite
que a pausa “terá um impacto muito grande na economia da ilha”, já
privada de outras festividades.“É difícil
nós assumirmos valores, mas se pensarmos que todos os anos devemos ter
em média 60 manifestações, desde danças de espada, danças de pandeiro,
bailinhos e comédias, que temos 36 salões à volta da ilha, que geram
aqui também uma fonte de receita ao nível do bar e de tudo o que é
inerente à gastronomia do Carnaval, nesta altura, estamos a falar de um
valor bastante razoável”, alerta.Ainda que
atuem de forma gratuita, os grupos têm gastos, mais ou menos
significativos, consoante as escolhas, com textos, guarda-roupa,
adereços, penteados, maquilhagem e transportes. São eles que dão a volta
à ilha, enquanto o público aguarda nas salas.Na
loja Modelina Tecidos a quebra de receitas foi notória. Entre forros,
entretelas e tecidos chegam a vender “seis mil metros” por ano, só no
Carnaval.“A nossa área é muito à base de Carnaval e festas e, não havendo, está tudo parado. É um impacto grande”, confessa Miriam Toste.O
negócio vai “sobrevivendo” com pequenas vendas de linhas e tecidos, mas
a empresária admite que “não é fácil” superar a quebra de receitas
provocada pelo cancelamento de festividades na ilha.“Nunca nos tínhamos visto assim sem nada”, conta.Em
média, um bailinho de Carnaval mais simples pode gastar entre 800 a 900
euros em tecidos e adereços, mas num grupo mais elaborado esse valor
pode rondar os 1.000 a 1.200 euros e numa dança de espada pode mesmo
atingir os 2.000 a 3.000 euros.O Carnaval é
também a principal fonte de receitas das sociedades filarmónicas e
casas do povo onde atuam as danças e bailinhos, apesar de não serem
cobrados ingressos.Geridas por
voluntários, estas instituições têm cada vez mais dificuldades em eleger
corpos dirigentes, e a suspensão das danças e bailinhos acentuou o
fenómeno.“Chegava-se ali a janeiro, não
havia direção e o Carnaval era o grande impulso para aparecer uma
direção, para abrir as portas para as danças. Não havendo Carnaval, não
há impulso”, explica o presidente da direção da Sociedade Filarmónica
Rainha Santa Isabel, na freguesia das Doze Ribeiras, Francisco Nunes.Ainda
que não tenha sentido esse problema na instituição que dirige,
Francisco Nunes reconhece que os tempos “não são fáceis”, porque, além
de não haver danças e bailinhos, as receitas do bar são cada vez mais
diminutas, devido à pandemia.Admite que
este Carnaval será passado com “muita tristeza”, mas garante que não
havia condições para abrir portas e duvida que alguém aderisse se o
tivessem feito.“Para ir de máscara na
cara, com distanciamento social? O Carnaval não é isso, nem nada que se
pareça. O Carnaval é festa, é folia e a gente de máscara na cara, sem
ver o sorriso das pessoas, a alegria que ali vai, o divertimento que as
pessoas têm no Carnaval? Não. Toda a gente tem de aceitar que não pode
haver Carnaval”, frisa.Resta, segundo
Francisco Nunes, aguardar que a situação melhore e esperar que as
vacinas contra a covid-19 cheguem a tempo do Carnaval de 2022.“Passaram
as Sanjoaninas, passaram as festas de verão, passou o Natal, a passagem
de ano, mas o Carnaval é especial para grande parte da ilha. Se há
alguma festa de que as pessoas gostam é o Carnaval. Também gostam de
todas as outras, mas não é a mesma coisa. O Carnaval faz parte do nosso
interior”, sublinha.