Cardeal patriarca admite estudo aprofundado em Portugal sobre abusos sexuais na igreja
24 de fev. de 2019, 22:12
— Lusa/Ao online
Em declarações à agência Ecclesia, no Vaticano, onde decorreu uma cimeira mundial convocada pelo papa Francisco dedicada aos abusos sexuais contra menores cometidos por membros do clero, o cardeal patriarca Manuel Clemente adiantou que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) vai ter novas medidas.Questionado sobre propostas para divulgar publicamente estatísticas sobre número de casos em Portugal ou a eventualidade de ser desenvolvido um estudo mais aprofundado sobre a realidade no país, Manuel Clemente admitiu que isso “é possível”.“Tudo aquilo que for necessário fazer para que as coisas se esclareçam, para que se avance, há de ser feito”, disse à Ecclesia.A propósito do encontro que decorreu desde quinta-feira até hoje, o cardeal defendeu que todos têm de “trabalhar a sério”, porque “é um problema global e tem de ter uma solução global”.Para Manuel Clemente, o problema dos abusos sexuais de menores no seio da igreja católica “é destrutivo” e “algo de muito profundo, que tem de ser erradicado”.Sobre as medidas que a igreja portuguesa pretende adotar, o cardeal patriarca explicou que terão por base o ‘vade-mécum’ que o Vaticano vai distribuir a todas as conferências episcopais, um documento orientador que recolhe os resultados da discussão desenvolvida por 190 participantes no encontro em Roma.Manuel Clemente classificou o novo documento como “mais preciso, mais articulado, mais operativo”, ajudando a concertar esforços e oferecendo “ideias mais concretas” para desenvolver as diretrizes que a CEP implementou desde 2012, refere a Ecclesia.Segundo as declarações do clérigo português, o texto deve ser analisado antes da assembleia plenária da CEP em abril.“Esse ‘vade-mécum’, de normas mais concretas e orientadoras, até nos vai facilitar o serviço”, considerou Manuel Clemente.O presidente da CEP deixou elogios ao modelo de cimeira escolhido pelo Papa, que classificou como original ao abrir o debate a vários participantes, que disse ter decorrido com “toda a franqueza”.“Isto é um exercício de Igreja no seu melhor. Por isso, estou muito grato, estamos todos, ao papa Francisco, por ter feito algo assim, que eu creio que também é um exemplo para todos nós”, disse à Ecclesia.O papa Francisco apresentou hoje, no Vaticano, passos para a luta contra os abusos a menores na Igreja católica no final da cimeira com responsáveis de episcopados e institutos religiosos que debateram o tema.Francisco, que falava no discurso final do evento, após a missa celebrada na sala régia do palácio apostólico, disse ter chegado a hora de “dar diretrizes uniformes para a igreja”, embora não tenha citado medidas concretas ou mudanças na legislação do Vaticano, enumerando apenas vários pontos para a luta contra os abusos a menores.Disse também que a igreja “não se cansará de fazer tudo o que for necessário” para levar à justiça quem quer que tenha cometido algum tipo de abuso sexual.“Nenhum abuso deve jamais ser encoberto [como era habitual no passado] e subestimado, pois a cobertura dos abusos favorece a propagação do mal e eleva o nível do escândalo”, disse aos 190 representantes da hierarquia religiosa e 114 presidentes ou vice-presidentes de conferências episcopais de todo o mundo que estiveram reunidos no Vaticano.