“A
candidatura de Trump ajuda apenas o Trump e talvez ajude os democratas
nas próximas eleições”, analisou, considerando que o partido
republicano ainda não decidiu o que irá fazer no seguimento do anúncio,
que aconteceu quarta-feira.Há um “coro de
vozes” no partido contra o regresso de Trump, depois de muitos dos
candidatos apoiados pelo ex-presidente nas intercalares terem perdido e
“é muito difícil descolar a presença e o apoio de Trump da perda do
Senado”, frisou Daniela Melo. “É uma
situação difícil para o Partido Republicano porque tem de decidir, já
não pode adiar, se quer ser um partido que abraça completamente o
'Trumpismo' ou se entra num período de rejeição total para tentar
recalibrar”.A professora da
Universidade de Boston destacou que quem vota nas primárias republicanas
é o seu eleitorado de base, “que vê em Trump um forte líder”, e isso
pode facilitar a sua nomeação, mesmo que haja outros candidatos a
desafiá-lo. “Mas o partido entende que não
consegue ganhar eleições presidenciais e tão pouco intercalares só com
essa base”, sublinhou. “Precisa do eleitor independente conservador, que
não gosta de Trump. Já tivemos vários ciclos eleitorais para perceber
que Trump só tem um peso muito forte com os eleitores de base do
partido”. No rescaldo das eleições
intercalares de 08 de novembro, em que os democratas mantiveram o
controlo do Senado e os republicanos reconquistaram a Câmara dos
Representantes por uma maioria bastante mais curta que o esperado, o
governador reeleito da Florida, Ron DeSantis, emergiu como potencial
alternativa a Trump. “DeSantis sai disto
muito bem”, disse à Lusa o cientista político Thomas Holyoke, que
leciona na Universidade estadual da Califórnia em Fresno, referindo-se à
vitória esmagadora do republicano contra o oponente democrata Charlie
Crist por quase vinte pontos percentuais (59,4% vs. 40%). “As
pessoas vão deixar de falar da Florida como um estado ‘púrpura’ ou
‘battleground’, é agora vermelho republicano, e isso deve-se mais a Ron
DeSantis que a qualquer outra pessoa”, indicou o especialista. O
contraste entre os resultados na Florida e o restante país, onde os
republicanos não conseguiram materializar a esperada “onda vermelha”,
melhorou a posição de Ron DeSantis como possível candidato à nomeação. Uma
sondagem conduzida pela WPAi Intelligence para o grupo conservador Club
for Growth mostrou, a 14 de novembro, que Ron DeSantis ultrapassou
Donald Trump nas preferências dos eleitores republicanos no Iowa, New
Hampshire, Florida e Geórgia, quatro estados muito importantes nas
primárias. “DeSantis está a ponderar tudo muito cuidadosamente. Suponho que ainda não tomou uma decisão”, referiu Thomas Holyoke.Esse
é um cálculo que, considera Daniela Melo, se torna difícil de fazer
neste momento porque o contexto sai fora dos padrões e não há
indicadores suficientes sobre como DeSantis seria recebido.“Ainda
não temos indícios suficientes para perceber se o eleitorado pró-Trump,
tendo de escolher entre Trump e Ron DeSantis, cairia por Trump. Não
temos certezas sobre isso porque DeSantis continua muito popular”,
explicou a especialista. “Embora tenha
adotado muitos dos temas que são populares com Trump e se tenha alinhado
sempre com o ex-presidente, ele é um político”, frisou Daniela Melo.
“Um político conservador que se encaixa mais nas matrizes de um
candidato tradicional”, acrescentou. A
professora notou que, no seu discurso de anúncio da candidatura, Donald
Trump evitou falar de Ron DeSantis ou do seu ex-vice presidente Mike
Pence. Trump tornou-se oficialmente
candidato numa altura em que continuam os rumores de que poderá ser
acusado pelo Departamento de Justiça pela retenção e utilização indevida
de documentos classificados. “Nenhuma lei
impede indiciar um candidato, mas do ponto de vista da óptica é
terrível para o Departamento de Justiça”, frisou a analista. Trump pode
usar essa narrativa para se escudar, alegando que é vítima de
perseguição política. Por outro lado, “tem saudades de ser presidente e
estar no poder”. O avanço de Trump e o
potencial de Ron DeSantis também estarão a ser ponderados do lado dos
democratas e do presidente Biden, que continua com taxas de aprovação
baixas (40-42%) e em 2024 terá 81 anos. “A
minha leitura é que Biden preferiria não ser o candidato, mas com o
anúncio de Trump torna-se mais provável que ele seja o candidato mais
uma vez”, referiu Daniela Melo. “Ele é o candidato que dá uma certa
segurança à base do partido de conseguir voltar a formar a mesma
coligação que derrotou Trump nas últimas eleições”, continuou. “Os
democratas sentem-se claramente otimistas quanto a esta questão porque
acham que Trump é um candidato que podem derrotar. Se for um DeSantis, a
questão é muito diferente”. A investida de um candidato jovem e popular
com a base conservadora contra Biden complica as contas, ao contrário
de Trump. “A capacidade de Trump de
mobilizar o voto pela negativa é incrível”, frisou. “O DeSantis não tem
um historial que vá trazer o mesmo tipo de coligação às urnas”. Há
também uma fadiga relativa ao ex-presidente, mesmo antes do início da
nova campanha, e muita gente não quer vê-lo de novo na Casa Branca.
“Trump é tão polarizador que consegue mobilizar o voto contra ele”.