Campanha quer ajudar a "pesar" os medos do impacto da obesidade
13 de out. de 2025, 10:14
— Lusa/AO Online
Em declarações à Lusa, a
presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e
Metabolismo (SPEDM), Paula Freitas, explicou que a iniciativa pretende
alertar para todas as doenças ligadas à obesidade, muitas delas as
pessoas nem relacionam.“Se tiver
obesidade, eu tenho medo de não viver o suficiente para criar os meus
filhos. (…) Mas muitas vezes as pessoas têm medo do cancro, mas ninguém
associa o cancro à obesidade”, disse a responsável, acrescentando: “as
pessoas têm medo de ficar limitadas, mas não associam que aquilo que
está na base daquelas 200 doenças ou comorbidades é a obesidade”.A
campanha, sob o mote “Quanto pesa o medo?” e que estará presente nas
televisões, hospitais, farmácias e plataformas digitais, defende que a
empatia e compreensão pelos medos e angústias que muitos sentem perante
os desafios do excesso de peso e da obesidade “é uma parte essencial
para gerir esta doença”, que pode comprometer a saúde física, mental e
emocional.A presidente da SPEDM lembrou
que o estigma e o preconceito “está enraizado nas próprias pessoas que
vivem com a obesidade, na sociedade em geral, mas também nos
profissionais de saúde”, que muitas vezes ainda consideram que o
tratamento da obesidade “é o coma menos e mexa-se mais”.A
iniciativa, desenvolvida em conjunto pela Associação Portuguesa de
Pessoas que vivem com Obesidade (ADEXO), Sociedade Portuguesa de
Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM) e Sociedade Portuguesa
para o Estudo da Obesidade (SPEO), com o apoio da Novo Nordisk, pretende
reforçar a mensagem de que a obesidade é uma doença crónica e que tem
tratamento. “O desafio lançado é simples,
mas urgente: não deixar que o medo pese mais do que a decisão de
procurar apoio médico”, acrescentam os organizadores.Paula
Freitas recordou que os tratamentos existentes para a obesidade
assentam em “três pilares fundamentais” - alterações comportamentais,
medicação e cirurgia – e lembra que a primeira coisa que quem sofre de
obesidade deve fazer é procurar ajuda médica.“O
médico, sobretudo o médico de família, seria a primeira porta a quem
devem bater para falar sobre o problema da doença da obesidade”,
defendeu, sublinhando que muitos médicos de Medicina Geral e Familiar já
estão capacitados para tratar a obesidade ou, quando não estão, podem
referenciar para os cuidados hospitalares, para tratamento médico ou
cirúrgico.“Na verdade, existem pessoas que
já têm formas de obesidade graves em que a única solução, ou a
primeira, pode ser a cirurgia. Para outras, a solução passa pela
terapêutica médica e, para outras, pela terapêutica comportamental”,
afirmou a especialista em Endocrinologia, frisando que “ao longo da
vida, alguém que tem obesidade vai precisando de todas estas
terapêuticas”.A presidente da SPEDM
recorda que há terapêuticas médicas muito eficazes e que são muito
seguras e bem toleradas, insistindo: “hoje, felizmente, podemos tratar
as pessoas que têm obesidade como tratamos as que têm diabetes,
hipertensão, colesterol alto ou doença cardiovascular”.Defende
que é importante tratar estas pessoas numa fase precoce, antes de
desenvolverem todas as doenças que potencialmente podem estar associadas
à obesidade.Apontou ainda a carga
económica da obesidade, lembrando um estudo da SPEO que mostrou que só
os custos diretos associados a obesidade rondam 1,2 mil milhões de euros
(representava na altura 0,6% do PIB e 5,8% das despesas em saúde em
Portugal).“Depois, temos os custos
indiretos, porque muitas vezes estas pessoas são preteridas de um local
de trabalho, ou as pessoas, pelas próprias doenças associadas, ficam com
incapacidades, têm mais dias de absentismo”, disse.E
recordou: “O que nós queremos é que os decisores políticos percebam que
pode ser muito caro tratar a obesidade agora, mas se eu não a tratar
agora, vou pagar muito mais quando tiver de tratar aquelas mais de 200
doenças”.Atualmente, as doenças crónicas
representam 86% da carga global de doença em Portugal, com cerca de dois
milhões de adultos a viverem com obesidade e 67,6% da população com
pré-obesidade, o que coloca Portugal no terceiro pior lugar na Europa.