Câmara de Lisboa vai criar resposta de acolhimento para sem-abrigo que pernoitavam junto à Igreja dos Anjos
20 de nov. de 2024, 18:19
— Lusa/AO Online
A
proposta foi apresentada pela vereadora única do BE, Beatriz Gomes
Dias, na reunião privada do executivo municipal e foi viabilizada com os
votos contra da liderança de PSD/CDS-PP (que governa sem maioria
absoluta) e os votos a favor dos restantes, nomeadamente PS, Cidadãos
Por Lisboa (eleitos pela coligação PS/Livre), PCP, Livre e BE, segundo
informou à Lusa fonte da câmara.O
documento determina a criação de uma resposta de acolhimento integrada
para as pessoas em situação de sem-abrigo que pernoitavam junto à Igreja
dos Anjos, na freguesia lisboeta de Arroios, que será “desenvolvida
pela Equipa de Missão para as Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, que tem
esta competência, e não pela Polícia Municipal que não tem essas
atribuições”.“Que a resposta de
acolhimento integrada tenha a garantia de resposta às necessidades
básicas, como higiene, alimentação, cuidados de saúde e apoio na
regularização”, lê-se na proposta.Outra
das deliberações é que as ações da Câmara Municipal de Lisboa que
impliquem a deslocação ou retirada de pessoas a pernoitar nas ruas só
podem ser feitas com o conhecimento prévio da pessoa afetada, e com uma
solução de acolhimento adequada a cada caso concreto, com o parecer do
gestor de caso da equipa técnica de rua, e acompanhada presencialmente
do assistente social e representante do departamento dos Direitos
Sociais / Equipa de Missão para as Pessoas em Situação de Sem-Abrigo.Em
causa está a situação de dezenas de pessoas que pernoitavam há vários
meses em tendas junto à Igreja dos Anjos, tendo a câmara no início de
outubro assegurado uma resposta de alojamento temporário, com o
realojamento de 55 cidadãos imigrantes em pensões e ‘hostels’.De
acordo com a vereadora do BE, “as pessoas em situação de sem-abrigo que
pernoitavam junto da Igreja dos Anjos não tiveram, durante todo o
período, apoio alimentar digno, acesso aos WC’s da Junta de Freguesia de
Arroios durante a noite e fins de semana, apoio na regularização,
resposta de saúde ou respostas sociais”.Nos
considerandos da proposta, Beatriz Gomes Dias recorda que o presidente
da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas (PSD), recuou no plano de utilizar o
antigo Hospital Militar de Belém como alojamento temporário para pessoas
em situação de sem-abrigo, apesar de o Governo ter assumido a
disponibilização do espaço.O BE lembra
ainda que, em 04 de outubro, a Polícia Municipal de Lisboa realizou uma
operação em que deslocou as pessoas em situação de sem-abrigo da área da
Igreja dos Anjos, onde tinham dormido durante meses, para três
‘hostels’ na zona da Praça do Chile.De
acordo com a bloquista, “a situação levantou várias preocupações”,
inclusive com Carlos Moedas a ser acusado de “explorar a crise dos
sem-abrigo para ganhos políticos, ao temporizar a realocação para
coincidir com o seu discurso de 5 de Outubro, onde declarou que o
problema estava ‘resolvido’”.“Apesar de
poder implementar um plano mais estruturado e robusto de alojamento
temporário pronto no antigo Hospital Militar de Belém, o presidente
optou por uma solução de curto prazo em ‘hostels’, o que deixa as
pessoas deslocadas em condições precárias e sem apoio social adequado”,
lê-se na proposta do BE.Questionando se as
pessoas realojadas têm tido acesso a apoio alimentar, cuidados de saúde
ou apoio para a regularização da sua situação, o BE sublinha que
solicitou repetidamente uma visita aos ‘hostels’ onde as pessoas
deslocadas estão atualmente, “mas o presidente Carlos Moedas não
respondeu a estes pedidos, demonstrando falta de transparência”.A
vereadora bloquista indica ainda que a solução de ‘hostel’ está
prevista no Plano Municipal para as Pessoas em Situação de Sem-Abrigo
apenas a título de emergência, pelo que é necessário que, em paralelo, a
câmara desenvolva “uma solução sustentada, uma vez que abandonou a que
tinha apresentado”.“Existem relatos que
denunciam que as pessoas em situação de sem-abrigo têm sido abordadas no
sentido de retirarem as suas tendas e de não poderem pernoitar em
certas zonas da cidade, como a Rua do Regueirão dos Anjos, ou ruas perto
do Largo de Santa Bárbara. Essas ações acontecem muitas vezes, sobre o
pretexto de limpeza urbana”, acrescenta o BE.