22 de fev. de 2022, 10:30
— Célia Machado/AO Online
Passados vários meses, quase não tem
mãos a medir, tal é o número de solicitações para que restaure
sapatos e até personalize ténis. O empreendedor de 30 anos fala das
mais-valias deste serviço numa sociedade tão consumista e dos
projetos futuros.
Que serviços são estes que estás a
disponibilizar?
Dedico-me ao restauro de sapatos, com
maior expressão para os ténis. Trata-se de um trabalho, o mais
possível, artesanal, feito à mão, o que me permite melhor
preservar e salvaguardar a integridade dos sapatos, a sua imagem e o
seu design originais. Neste momento, fruto de alguma experiência e
evolução técnica, posso também fazer intervenções ao nível da
customização de sapatos, o que significa introduzir elementos
decorativos e ornamentais personalizados no calçado, ao gosto do
cliente. Há, igualmente, a possibilidade de fazê-lo, com a
autorização do cliente, de acordo com a minha visão estética e
criativa. Todo este processo é dinâmico, porque se faz em
permanente evolução e aperfeiçoamento, tendo sempre o cliente como
o centro de todas as atenções. Há imensas vantagens deste serviço
para o ambiente e a economia. Este é também um aspeto muito
importante para o desenvolvimento do meu projeto. Numa sociedade
ferozmente consumista, é preciso desenvolver, não com palavras, mas
na prática, ações concretas e verdadeiramente amigas e defensoras
da sustentabilidade ecológica, da racionalidade económica e da
poupança. O meu trabalho responde a essas minhas preocupações. É
um pequeno contributo, mas, para mim, é muito importante, porque se
enquadra nas preocupações urgentes deste novo mundo.
Como surgiu a ideia de enveredar por
este ofício?
Não foi repentinamente. Tenho um gosto
particular e muito especial por sapatos, ao nível da funcionalidade,
do conforto, do processo de construção e fabrico, do design e da
imagem que os sapatos dão às pessoas. Tenho um lema relativamente a
este assunto. Há duas coisas na vida, a nível material, que uma
pessoa deve investir; por outras palavras, onde as pessoas não devem
poupar: uma boa cama e uns bons sapatos. A qualidade de vida e de
saúde das pessoas passa muito pela qualidade destas duas coisas, até
porque, habitualmente, quando tiramos os sapatos vamos para a cama e
quando saímos da cama calçamos os sapatos.
Este meu gosto e interesse por calçado
fez-me tomar uma decisão. Lembrei-me de limpar o meu guarda-roupa.
Ao fazê-lo, deparei-me com vários pares de sapatos que estavam
sujos e deteriorados pela falta de uso, mas que podiam ser
reabilitados e reaproveitados. Este episódio despertou em mim um
interesse muito forte em aprofundar, com caráter científico e
técnico, o conhecimento e as técnicas associadas ao restauro e à
limpeza de sapatos. Passei horas e horas a fio a estudar, a
investigar e a aprender, com recurso à internet. As competências
adquiridas permitiram-me restaurar, com êxito, todos os meus sapatos
e outros de familiares. Os resultados foram bons e a experiência
inicial foi decisiva; deu-me prazer e felicidade. Descobri que era
aquilo que gostava de fazer, percebi que tinha gosto e jeito para
levar por diante um projeto destes. Desenvolvi rapidamente uma paixão
por esta atividade.
É em "part-time" ou um
trabalho a tempo inteiro?
Este mês, assumi este trabalho a tempo
inteiro. Vamos ver como as coisas evoluem, sem precipitações e com
sentido de responsabilidade.
Como tem sido a aceitação?
A aceitação tem sido, claramente,
muito acima das expetativas. Tenho sentido o apoio da comunidade, da
família e dos amigos. Até agora, o reconhecimento dos clientes,
relativamente à qualidade e à seriedade do meu trabalho, tem sido
muito positivo e favorável. Agradeço-lhes o seu apoio e o seu
estímulo. Sem eles o projeto deixa de existir.
Trabalhas onde?
Trabalho em casa, numa oficina
improvisada, nas Lajes do Pico.
Aceitas apenas clientes do Pico?
Nesta fase, sim. Planeio, se o projeto
se consolidar, alargar este serviço a outras ilhas dos Açores.
Qual o teu percurso
académico/profissional até chegares aqui?
Tenho o Ensino Secundário. Frequentei,
em Lisboa, a Universidade, mas não me adaptei. No entanto, essa
experiência de vida, numa grande cidade, revelou-se muito
importante. Deu-me outra abertura, outros conhecimentos, uma outra
visão do mundo, que acabam por ser decisivos para a minha vida e
para a construção deste projeto.
Que projetos tens, quer seja nesta como
noutras áreas?
Nesta área, o meu objetivo é abrir
uma oficina minha, em local próprio, com as condições exigíveis.
Futuramente, tenho em vista alargar a minha área de intervenção no
domínio do restauro para malas e casacos, em couro, e até
confecionar calçado.